Intermitências 2: Portas.

Há na vida portas que se abrem e aquelas que nunca ousamos tocar.

Quando eu era criança pequena lá em Sete Lagoas, duas coisas me chamavam atenção no circo. A primeira era Monga, a mulher macaco. Eu nunca cheguei a vê-la, uma porta que não se abriu. A outra era o Castelo do Terror – este, que por mais simples que fosse, sempre arrancava de mim uns trocados para percorrer corredores obscuros e xingar os palhaços que se fantasiavam de vampiros e duendes.

Hoje tenho consciência de que entrar no Castelo do Terror funcionava como abrir portas repletas de uma falsa coragem por saber que, por mais que o susto fosse alcançado, ele era pago e, por conseguinte, previsível.

Há quem prefira não descobrir a Monga que lhe espera do outro lado da porta.

Sérgio Malandro nos presenteou com a porta dos desesperados. Sílvio Santos, com a da esperança (veja MC Creu na Porta da Esperança). Jim Morrison e banda, com a porta chapada da loucura musical. A Igreja, em nome do Pai, nos abrem suas portas para encontros com Deus.

Abrir portas carrega uma responsabilidade que vai da filosofia desconstruída por Derrida, o Jacques, ao puro discurso nada palpável de Lair Ribeiro e seguidores. George Moore e Oliver St. John Gogarty, quisera eu, que nos tivesse dado as portas de Dublin.

A verdade é que portas se abrem diariamente. Quando deito e deixo o espírito vagar, fecho algumas delas para que novas passem a existir em minha mente.

Um amor vencido, um desencontro profissional, o desejo de correr sem parar aqueles oito quilômetros numa ida e volta da minha fortaleza. São exemplos costumeiros, e bestas por sinal, de portas já conhecidas.

O que se passa entre quatro paredes com aquela fulaninha da pele clara e cachecol que abraça o pescoço, o olhar desconfiado por uma resposta não dada, a sentença ambígua cuja interpretação plausível não alcancei. São exemplos costumeiros, e bestas por sinal, de portas que tenho tentado abrir.

Maçanetas que, a priori, só se deixam conduzir de dentro pra fora.

Há pouco de mim nessa vã filosofia para que me entendas. Melhor ir por partes, nesta mania nova, e besta por sinal, de pontuar a vida em meras intermitências.

As portas de Derrida

Quando paro pra pensar em Jacques Derrida e sua ‘desconstrução’ a primeira coisa que me vem à mente é que o sujeito devia ser um ‘péla saco’ dos bons. Porque uma pessoa que tem como ofício desmembrar com argumentos a forma de pensar dos outros é, no mínimo, um inconveniente. O tipinho que deve ter apanhado muito na vida dizendo à mãe que foi tudo intriga da oposição, que os seres humanos não são inteligentes o suficiente para compreender suas teorias coerentes e bem arranjadas. Eu mesmo, com meus braços finos, não hesitaria em dar-lhe uns dois bons sopapos na cara.

Mas Derrida, em si, não tinha como objetivo destruir, mas sim desmontar. Mostrar que por baixo do pano que se tece há muita poeira por varrer mesmo ainda antes de pronto. Para ele, ‘não existiam fatos, apenas interpretações’.

Desconstruir a filosofia seria, não só ousadia demais, mas uma afronta à leitura verdadeira da verdade na própria. Veio dele a expressão “a linguagem se cria e cria mundos”, tal como a porta diante de ti, seus significantes e significados. Seria um caminho sem volta muito além do 3º nível da origem interpretada por DiCaprio.

Para este argelino de cabelos grisalhos, sotaque francês e cachimbo posto em boca, das palavras não se obtêm o que gostaríamos de exprimir (mas que um ‘olhar 43’ poderia muito bem completar).

Qual seria, na mente de Derrida, a questão da questão? Ele a divide em duas partes: “seria o questionamento uma forma privilegiada da filosofia? Não haveria, antes da questão, um movimento radical e mais profundo que não está questionando, mas sim afirmando”? Esta seria sua primeira de duas.

A segunda vai de forma mais direta no significado da palavra ‘being’ em contraposição ao ‘to be’. To be or not to being? To being or not to be? Segundo o próprio Derrida, a origem desta sua peculiar forma de pensar surge a partir de algumas leituras de Heidegger, às quais ele curtiu, desmembrou, reinterpretou e construiu sua linha de pensamento.

Não quero abrir portas de Heidegger nesta intermitência. Segundo Derrida, Heidegger não via com bons olhos a forma como os filósofos gregos faziam coro ao particípio presente, ou seja, à derivação da forma verbal no tempo presente do ‘being’. “Nós não teríamos uma interpretação privilegiada numa modalidade de tempo que seja o ‘presente, e a presença do presente'”, disse o próprio Jacques.

O que o bom velhinho queria, em suma, era buscar o que estava por trás da questão. Para se chegar a ela há uma construção, uma afirmação. Ela, a questão, quer construir, mas antes precisa ser desconstruída para que se  entenda o que na verdade se quer construir. Muito foda, não?

Antes de abrir uma porta, ele procura entender por que gostaríamos de abrí-la, o que nos motivou uma vez que, quando se estende o braço, mesmo que não haja uma resposta pronta, existe uma já pré-concebida que pode ou não se fazer valer.

As portas de Monga

Monga, a macaca misteriosa e como já dito foi uma porta que não abri. Eu não apertei a mão, não rocei nos pelos, não paguei peitinho com este ser mítico e misterioso.

Fato é que ela tornou-se uma franquia pelos circos mundo afora. Desde aqueles que chegavam à pequena São João do Mato Dentro (MG), até mesmo a megalópoles como a cosmopolita São Paulo.

Paulo Terron, o autor da elucidação deste mundo sombrio que rondava minha infância, apresenta Monga como “uma mulher bonita, geralmente de biquini, que ficava presa numa jaula” enquanto o narrador explicava a transformação bem no estilo ‘lobisomem em noite de lua cheia’ que aconteceria.

Tal como o incrível Hulk, a gostosa em meio a um jogo de espelhos e uma fantasia grotesca se agigantava e tornava-se a mulher macaco. Um ser quase canibal, doentio e com força descomunal que destruía qualquer jaula que fosse para matar sua sede de vingança.

Por trás da fantasia, a minha, a ciência pontua a mexicana Julia Pastrana (nascida em 1834) como alguém que veio ao mundo com uma dose excessiva de hipertricose (aquela doença que acomete muitos velhinhos quando surgem pelos na orelha) que lhe deixou como herança um corpo coberto de fios. Não bastasse isso, Pastrana – segundo relatos – tinha orelhas grandes, lábios inchados e gengivas estranhas. “Na época,  chegaram a cogitar que ela teria duas fileiras de dentes”, escreveu Terron.

Cartaz de Júlia Pastrana, a musa inspiradora de Monga

Caiu como uma luva para um cara de visão chamado Theodor Lent. Tornou-se um freak show. Talvez por dó, talvez por amor, Lent casou-se com Pastrana.

“Julia passou a ser exibida em freak shows, as caravanas de mulheres barbadas, pessoas deformadas e coisas estranhas que viajavam pela Europa e pelos EUA entre a 2a metade do século 19 e a 1a do 20.

No show, além de dar o ar de sua graça, Julia dançava e cantava – tinha uma voz bonita, dizem. A grossa pelagem escondia uma moça educada e inteligente – Julia falava espanhol e inglês, adorava cozinhar e costurar. Morreu aos 26 anos, de complicações no parto, depois de dar à luz um filho que sofria de hipertricose (e que morreu 3 dias depois de nascer). Nem isso preocupou Lent: o empresário mandou mumificar os dois cadáveres e continuou a exibi-los até sua morte, em 1880. As múmias reapareceram em 1921 nas mãos de Haakon Lund, um showman norueguês que viajou com os cadáveres por duas décadas. Hoje, Julia e o filho descansam no Instituto Forense de Oslo, longe do público apavorado dos parques de diversão”.

A transformação: filme Dr_ Jekyll and Sister Hyde

As portas de Dublin

Quando deixamos o chão que pisamos sem que ovos estejam entre o solo e a sola, uma estranheza enorme bate no peito. Entre a despedida, as lágrimas que escorrem, o peito que se arrebata, o voo que decola e o voo que pousa, mesmo que portas não se abram, elas já se fazem presentes. Grandes, pequenas, médias, de todos os tamanhos e formatos. Algumas nos chegam como certezas, outras como aspirações, há aquelas que vêm como dúvidas, medos, e também surgem as portas do encantamento.

Há portas que não precisam estar diante de nós para que nos façam parar diante delas. As Portas de Dublin são assim.

Mais que portas, destas que estamos cansados de não dar valor – apenas estuprando-lhes chaves adentro -, as portas de Dublin são como obras de arte. Vermelhas, amarelas, azuis, p&b com recortes e numa policromia interminável.

Com tons brilhantes ou não, as portas georgianas se tornaram um dos atrativos turísticos de Dublin, na Irlanda Foto: Frederico Carvalho

Reza a lenda, e aqui transfiro palavras de um mineiro turismólogo que faz da Irlanda sua porta segura, Frederico Carvalho, que tudo começou com uma forma bem distinta de dois escritores vizinhos e bebuns. Apresento-lhes: Oliver St. John Gogarty e George Augustus Moore. De acordo com informações do Fred, mesmo que várias teorias sejam adotadas pelos guias da região, uma delas parece a mais convincente.

“George vivia ao lado de Gogarty e pintou sua porta de verde para que o vizinho, bêbado, não achasse que sua casa fosse a dele. Gogarty, por sua vez, pintou sua porta de vermelho para que Moore não confundisse também”. Porém, há relatos que fazem menção ao momento ‘post mortem’ da rainha Vitória, da Inglaterra. A ordem era de que todas os irlandenses pintassem suas portas de preto e, cabreiros por se sentirem submissos, torceram o nariz e optaram por cores brilhantes. “Eu particularmente suspeito desta última teoria. A fileira de casas georgianas são muito semelhantes. Com a necessidade de se distinguirem, acrescentaram adornos e coisas ornamentais – tais como batedores de portas e bandeiras – além de usarem cores brilhantes”, disse.

Oliver St. John Gogarty

George Moore

Eu, mineiro interiorano distinguindo portas de muralhas em Fortaleza e apreciador de um bom vinho, gostaria muito de ter a primeira teoria como a mais correta. Mas, como tudo na vida é cheio de controvérsias, a história relata que o escritor George Moore era geralmente comedido, bebia pouco e não expunha sua embriaguês em público. Resumindo: fresco. A verdade é que sua casa, bem como a dos vizinhos, foram construídas baseadas na arquitetura georgiana.

Muitas portas têm sido colocadas diante de mim. Algumas tenho aberto. Outras, ainda requerem o resgate de um eu que não se faz presente no momento. Como o espírito que subiu num sonho e ainda não voltou. Já a arquitetura georgiana, esta requer mais estudos. Se meu tempo é curto, deixo-lhe com um pouco mais do assunto.  Clique aqui e saiba mais.

One thought on “Intermitências 2: Portas.

  1. Comparo as portas aos ritos de passagem que temos que encarar e que, naturalmente, fazem parte de nossas vidas. Umas vezes são fardos outras não. Mas o desconhecido que há por trás das portas da vida e a dúvida de ousar abrí-las é o que as diferem dos ritos. Há portas que se abrem naturalmente e outras que exigem uma carga de responsabilidade, concordo com você. Tenho uma lembrança muito clara da Monga. Essa é uma porta que nunca foi aberta para ninguém. No entanto, a escolha, junto com a ousadia, faz parte do desvendar as portas que são tão carregadas de significado. Muito bom o seu texto.

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