Intermitências – 08.05

1.0

Sabedoria para mim é conhecimento calejado pelo tempo. Por que dizer isso? Hoje, domingo das Mães, fiz o dever de casa, liguei para a minha, trocamos ideias e confidências, deixei um beijo e ganhei outro.

É que hoje ouvi músicas de mãe e parei frente ao espelho onde sempre mantenho um recado do pai: ‘a vida nos tráz encontros e desencontros. às vezes, ficamos na encruzilhada até decidirmos o melhor caminho. nossos valores nos mostram a direção mais acertada. nascemos para vivermos unidos. a separação é mera casualidade. beijos’.

O espelho, no caso, foi a morada escolhida para o recado por ser um local que visito diariamente. É como tomar a benção antes de encarar o dia.

E parei para ouvir uma música de mãe: Trio Irakitan, Contigo Aprendi. Minha mãe adora bolero, ela é super romântica e recebi um pouco desta característica (que considero nobre, por sinal) talvez pelo sangue, talvez por osmose enquanto lavávamos as vasilhas do almoço e conversávamos trivialidades.

Eu gosto de bolero. Acho que é um pouco do nosso lado tango, uma faceta que o Brasil precisava assumir, mas prefere dar louros à bossa nova. Enfim…

Acabei por ironia das listas do youtube chegando a…

2.0

… música de Anísio Silva. Baianinho por naturalidade, nasceu nos anos 20 e faleceu nos idos de 1989. Começou a carreira com seu jeitão romântico; em 1952 para ser mais exato, no Rio de Janeiro. Seu primeiro contrato foi com a Odeon, onde viveu os anos de ouro de sua carreira.


Conforme registra a história, nesse ano seu primeiro grande sucesso foi “Sonhando Contigo”, título também de seu primeiro LP. O segundo, veio dois anos mais tarde intitulado “Anísio Silva Canta Para Você” da qual se destacou “Quero beijar-te as mãos”, de Arsênio de Carvalho e Lourival Faissal.

O ápice de Anísio veio em 1960, com o lançamento do disco “Alguém Me Disse”. Na época, como mp3 era o mesmo que premonição de louco, o LP vendeu mais de dois milhões de cópias e, assim, o pioneiro no estilo ‘bigodinho safado’ tornou-se o primeiro cantor do Brasil a ganhar um disco de ouro.

Mas eu queria falar mesmo é que…

3.0

… sinto falta das serestas. Quando eu ainda era pequeno, há uns 20 e poucos anos, era comum você ser pego de surpresa com alguém cantando seus amores à beira de uma janela. A cerâmica de barro das Minas Gerais resgatou e mantém viva por meio da personificação das ‘namoradeiras’.

Foto de Drigo Santos - olhares.com

O léxico nada mais é que ‘serenata’ em uma ‘nova roupagem’, como trocar seis por meia dúzia. A tradição antiga meio que se perdeu nos dias de hoje. A ponto de eu conversar com uma garota na calada da noite e ela inquirir sem pestanejar: ‘vai chegar em mim ou não’? Estava mais preocupada com o celular e suas redes sociais que com uma conversa sem prazo de validade.

Hoje em dia as pessoas não fazem mais serestas madrugada adentro. É bem provável que alguém jogue um balde de água fria, peça silêncio, mas eu prefiro acreditar que seja possível realizá-las.

A origem das serestas é um pouco longa para esta intermitência, mas está registrada e pode ser conhecida aqui. Um breve resumo descrevo eu da seguinte forma: “A serenata já apareceria descrita em 1505 em Portugal por Gil Vicente na farsa ‘Quem tem farelos?’

No Brasil, o costume das serenatas seria referido pelo viajante francês Le Gentil de la Barbinais, de passagem por Salvador em 1717, que contou: “à noite só se ouviam os tristes acordes das violas”, tocadas por portugueses a passear debaixo dos balcões de suas amadas cantando, de instrumento em punho, com voz ridiculamente terna.

Ferdinand Denis, outro francês e estudioso de literatura luso-brasileira, registraria em livro de 1826 que “gente simples, trabalhadores, percorrem as ruas à noite repetindo modinhas comoventes, que não se consegue ouvir sem emoção”.

Com a transformação dessa modinha, a partir do Romantismo, em canção sentimental típica das cidades em todo o Brasil (alguns poetas românticos foram compositores, outros tiveram seus versos musicados), tal tipo de canto, transformado desde o séc. XVIII quase em canção de câmara, volta a popularizar-se com a voga das serenatas acompanhadas por músicos de choro, a base de flauta, víolao e cavaquinho.

No Brasil dos seresteiros, o clima era dado junto ao lampião de gás ou à luz da lua.

De fato, a origem desse costume – de se evocar alguém (especialmente a pessoa amada) através dos versos – vem de muitos séculos atrás. Conforme o testemunho de cronistas medievais, na Pesínsula Ibérica (Portugal e Espanha), desde a Idade Média os trovadores e menestréis já costumavam entoar as famosas Cantigas ou Cantares, que compõem um vasto repertório lírico e também satírico: as Cantigas nem sempre tinham tom de romantismo, pois havia as Cantigas de Amigo, de Amor, destinadas aos amigos ou à amada, mas também as Cantigas de Escárnio e Cantigas de Mal-dizer, nas quais enviavam-se recados indelicados a desafetos pessoais, inclinando para o tom humorístico.

Aqui seguem algumas canções que renderiam boas serestas, com participação até mesmo de Amado Batista.

4.0

E se as serestas foram bem registradas pelos franceses, outro que deve ser lembrado e celebra neste 08 de maio mais um aniversário de falecimento é Gustave Flaubert. Lembro-me de uma oficina literária realizada no prédio de Turismo da PUC-MG, organizada pelo docente, dramaturgo e escritor Edmundo de Novaes Gomes. Isso foi por volta de 2001, creio eu.

O certo é que o também escritor, e dos bons – merece ser dito -, Sérgio Sant´Anna, disse que se tivesse de se isolar numa ilha e, consigo, pudesse levar apenas um livro, este seria Madame Bovary (a mais famosa obra de Flaubert e reconhecida internacionalmente).

Eu li Madame Bovary. Na época, não concordaria com Sant´Anna, mas se ‘sabedoria é conhecimento calejado pelo tempo’, eis que novamente retomarei a leitura de Madame para tentar enxergar com outros olhos este universo que se pode buscar no imaginário fazendo de uma ilha inóspita um bom lugar para a solidão de umas férias sem passagem de volta.

Flaubert marcou a literatura francesa pela profundidade de suas análises psicológicas, seu senso de realidade, sua lucidez sobre o comportamento social, e pela força de seu estilo em grandes romances – diz o Wikipédia. Eu não sei se isso é verdade, o que posso dizer com absoluta certeza é que seu bigode dá de 10 a 0 no do Will Nogueira, da TV Diário.

O escritor viveu pouco para os dias de hoje: 59 anos (12/12/1821 a 08/05/1880). Foi o segundo de seis filhos. O interesse pela literatura teve como ponto de partida um semanário escolar: ‘Arte e Progresso’.

Em 1837, escreve seu primeiro romance, “Rêve d’enfer”, uma obra ainda imatura e juvenil, mas que já vislumbra os traços que caracterizariam suas futuras heroínas. Também aos 15 anos se apaixona, por uma mulher casada e onze anos mais velha do que ele, Elisa Schlesinger, a qual amará, talvez, pela vida toda; só declara, porém, o seu amor 30 anos mais tarde, através de uma carta. Talvez resida aí um pouco de Madame Bovary, afinal, toda ficção tem, no fundo, um tanto de verdade.

Flaubert deu início a ‘Madame Bovary’ em 1851 e levou cinco anos para concluí-lo. Drummond, o testinha itabirano, defendia a opinião de que um texto não deve ser feito às pressas.

O gaúcho Leminski também escreveu sobre como sai “Um bom poema”:

um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto.

O que diria então de um romance? Quando eu subir, conto a vocês.

O livro virou filme…

Antes que chegue a aurora, brindemos então às mães, às serestas, às namoradeiras, aos boleros, ao bigodinho e, por que não, à Madade de Flaubert. Já se vão 131 anos. E ele permanece em nossas vidas…

2 thoughts on “Intermitências – 08.05

  1. Rods, seu texto me deu um sorriso e um afago ao mesmo tempo. Me fez querer também uma seresta e também reler Madame Bovary, que concordo com você, na época em que o li também não me apeteceu. Mas anos se passaram, pessoas e coisas idem.
    Beijoca pra tu.

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