Amyr Klink: Um Homem Precisa Viajar (Mar Sem Fim)

“Tanto mar, em vez do nos separar, nos uniu. Em 141 dias de ausência, do início ao fim, o Paratii fez a sua volta e retornou a Jurumirim. A Terra é mesmo redonda. Ao longo do caminho, pensando bem, nem vento, nem ondas, nem gelo tão ruins porque no fim nada impediu o meu veleiro de voltar inteiro à sua baía. E nada foi melhor do que voltar pra descobrir, abraçando as três, que o mar da nossa casa não tem mesmo fim.

Pior do que passar frio subindo e descendo ondas ao sul do oceano Índico seria não ter chegado até aqui. Ou nunca ter deixado as águas quentes e confortáveis de Paraty. Mesmo que fosse apenas para descobrir o quanto elas eram quentes e confortáveis. Eu senti um estranho bem-estar ao contornar gelos tão longe de casa.

Hoje entendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver”.

(“Mar sem fim”- Amyr Klink)

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