Júlio Pomar: arte lusitana que atravessa décadas

Nascido em 10 de janeiro de 1926, na rua das Janelas Verdes, Júlio Pomar é português natural de Lisboa e, apesar de ter se aventurado nas áreas de desenho, ilustração, cerâmica, tapeçaria e cenografia, foi na pintura e na escultura que acabou se encontrando como artista. E podemos dizer, sem medo de errar, que este sim foi um belo encontro.

Suas obras já estiveram em solo brasileiro por diversas vezes, tendo início nos idos de 1953, quando expôs na Bienal de São Paulo – ato este que se repetiu em 1975 e, novamente, em 1985. Em 86, suas obras foram apresentadas em museus carioca, paulista e também no Distrito Federal.

Antes disso, contudo, já era conceituado o principal cultor do Neorealismo na pintura portuguesa, de 1945 a 57. Sua primeira exposição individual aconteceu em 47, na cidade do Porto.

Julio Pomar, em seu ateliê

Muralistas mexicanos como Orozco e Diego Rivera foram fontes nas quais Pomar bebeu, porém não tardou muito para que seus traços fossem ganhando toques de originalidade com a influência de outras culturas – o que fez dele um dos maiores nomes da arte europeia. Em 1944, o quadro Café teve como destaque a figura de um gato. Na época, Júlio Pomar ainda frequentava a Escola de Belas Artes do Porto e andarilhava pelos cafés Majestic e Piolho. Numa entrevista à equipe da Up Magazine, o artista contou que vivia na casa de Dona Luísa, uma senhora que alugava quartos a estudantes. “Tinha um jardinzinho frequentado por gatos como este”, explicou.

Quadro A Arca de Noé, 2003 - Júlio Pomar

Mário Cláudio, escritor, relatou na obra “Júlio Pomar – Um Álbum de Bichos” que a seguir deste quadro “haverá de se afirmar inúmera a bicharada, a manter presença cativa na obra de Pomar, e eis que falar do artista sem ela, ou dela sem o artista significaria reflectir sobre um corpo sem alma que o justificasse, ou sobre uma alma sem corpo que a sustivesse”.  A ligação com bichos e bichanos, contudo, é profunda, coisa de infância. Passáros, macacos, tigres e outros também se fazem presentes nas pinturas deste lusitano. Mas, por trás disso tudo, há uma reflexão crítica contra os meios. “As pessoas estão programadas para ter uma actividade absurda, e quando têm um momento em que podiam fazer uma ocntemplação do vazio, põem-se defronte da televisão e escapam-se. Não se veem, não veem os outros, veem ‘macaqueamentos’delas próprias”, afirmou durante a entrevista.
Na década de 80, Pomar refugiou-se na Amazônia, com o intuito de acompanhar a rodagem de Kuarup (filme de Ruy Guerra). A viagem, que duraria uma semana, prolongou-se por dois meses. “Quem não ficaria num lugar onde a alegria de viver é uma prática diária”, questionou Pomar. Deste incursão ao norte do Brasil, surgiram obras como “Banho das Crianças no Tuatuari”, mas também serviu como base para investir mais no desenho. “Pintar poderia ser uma distracção dessa absorção de coisas”.

Edgar Poe, Fernando Pessoa e o Corvo, 1985 - Colagem e acrílico sobre tela - Coleção Particular

“Júlio Pomar tem vários livros publicados. No âmbito da poesia destacam-se as obras ‘Alguns Eventos’ e ‘Tratado Dito e Feito’. Já na área do ensaio uma menção para o citado ‘E então a Pintura?’. Vasculhando os baús da memória, o pintor-poeta relembra que terá escrito os primeiros versos nos finais dos anos 30 quando frequentava a Escola António Arroio”. Neste caso, teve como parceiro o poeta Mário Cesariny, momento em que a produção literária era acompanhada de faltas às aulas para ver rebanhos nos campos do Areeiro. Este português não é do tipo que tem as artes como ofício, pelo contrário, são elas quem abusam de seus sentidos. E nisto que mora a genialidade, transpirar a inspiração, sem beijos forçados ou abraços incompreendidos.
Almoço do trolha, 1946/50 – Óleo sobre tela – Colecção Manuel Torres, Oeiras
Cegos de Madrid, 1957/59 – Óleo sobre tela – Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

Tartaruga, 2003 - Bronze e vidro - Colecção Galeria Valbom, Lisboa

Clique aqui e veja outras obras de Julio Pomar.

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