Fred, o Navarro, por Rodrigo, o Coimbra

Não me lembro quando (e tampouco isso aqui importa) Caetano, o Veloso, cantou “tudo era apenas uma brincadeira e foi crescendo, crescendo, me absorvendo e de repente eu me vi assim completamente seu(…)”. Paro aqui em ponto, não para trazer interpretações ambíguas, mas com intuito de fazer referência pela música ao início de uma ligação virtucarnal (se é que Rosa, o Guimarães, não estremecerá em seu leito eterno) a partir do dia em que Fred, o Navarro, apareceu.

Foi numa noite quente, cuja exatidão geográfica me falha a memória – se mineira ou sergipana (chãos por onde já andei) – mas lembro-me exatamente de virar em frenesi para o lado e exclamar como uma criança diante do primeiro objeto de desejo em letras garrafais FRED NAVARRO ME RETUITOU. Quem diabos é Fred Navarro, meu Deus?, ouvi a pergunta de bate-pronto. Pois que retruquei com leveza budista e sem bater à mesa que Fred, o Navarro era, acima de tudo, Um cara foda do Twitter aí.

O que começou com o flerte de RT´s, aos poucos, tornou-se para este que lhes dirige a palavra um “namorico de portão”, parafraseando Tom, o Zé. Confesso, como qualquer outro, que muitas das vezes a atenção despertada acontece pela lisura ou firmeza de um par de coxas, pelo Niemeyer das curvas geneticamente projetadas, pela espessura dos lábios ou profundidade hipnótica de um olhar. Neste caso, única e exclusivamente, a paixão foi pelo oceano de conteúdo projetado a navegar. Era chegada a hora de eu vuvuzelar aos marinheiros que me ouviam a expressão Terra à vista.

Com a espontaneidade que me foi dada – porque cara de pau é marca que deixo para os covardes – comecei a enviar ao Navarro links que talvez, repito, talvez, soariam interessantes. A necessidade era, apenas, de diálogo a distância. Com o tempo, vieram os #FF. Na sequência, sua primeira colaboração neste blog. Brindamos, no astral, algumas taças de vinho ao som de Coltrane. Até que chegou, em mãos, seu Dicionário do Nordeste. Gentileza que poucos oferecem, embrulhado em papel de pão, com dedicatória e assinatura “Do amigo”. Livro robusto, denso, rico, um roteiro minucioso para este sujeito sem predicados do interior das nosas Gerais que muito já viajou pelo Nordeste e, até que assim Deus queira, faz moradia na Fortaleza do Ceará.

Cada página folheada, cada palavra lida, cada significado desvendado a partir da “coivara de memórias” de Fred trouxe consigo lembranças metafóricas da minha primeira quinzena de anos. Foi como bater na terra úmida o beiço da enxada e ver sua boca recheada de minhocas gordas, saltitantes, sedentas, dispostas a alimentar os peixes que naufragam represas das minhas Sete Lagoas.

Fred Navarro é, para ele, um bom pai de família. Para mim, uma benção nordestina para a mesa de bar. Para muitos, jornalista, tradutor e escritor. Para você? Defina por si próprio:

À esquerda, Fred Navarro em encontro com Lula, 1979, Recife. Foto de Romildo Gouveia Pinto

Rodrigo Coimbra: Fred Navarro é pernambucano, do Recife, e reside em São Paulo desde 1983. Mudar foi uma fuga para ir de encontro a uma voz, foi uma aventura ou um propósito?

Fred Navarro: Mudar do Recife para São Paulo foi fugir das origens, sem dúvida, mas para poder recuperá-las. O Brasil autêntico, real, aquele que não passa na tevê, não cabe em fronteiras estaduais ou regionais, há que se percorrer montanhas e litorais para conhecê-lo, para se espantar diante de tanta diversidade geográfica e humana, e ficar pasmo diante da riqueza herdada da natureza, mas histórica e politicamente mal distribuída. Só me mudei para São Paulo aos 27 anos, mas já namorava a cidade e o Estado desde a adolescência. Aos 19 anos, 21 anos, tirava férias no Recife e passava um mês aqui dentro dos cinemas e teatros, na Mostra Internacional de Cinema, na Bienal. Depois que me instalei, concluí que morar aqui dá aos brasileiros uma visão cosmopolita do país e do mundo, apesar do provincianismo ainda visível em muitos lugares, das madames da Oscar Freire ao feirão de carros usados nas marginais. Não há contradição nisto: a partir do provincianismo cosmopolita de São Paulo entendemos melhor os provincianismos e regionalismos do restante do país.

RC: Retornar às raízes, mesmo que de quando em vez, qual significado tem?

FN: É a tal coisa de beber na fonte… Basta entrar no avião em Guarulhos ou Congonhas com destino a Salvador ou ao Recife que os sotaques nordestinos se destacam. Às vezes não consigo me concentrar na leitura ou ouvir música, durante as três horas de vôo até o Recife, tal a variedade de expressões, palavras e sotaques que ouço de toda parte do Nordeste. Para um estudioso ou amante da linguagem, é música para os ouvidos. As praias e o sertão pernambucano e nordestinos são destinos excepcionais para viagens fora do padrão da classe média brasileira, tão afeita a “resorts” metidos a bacanas e que lembrem a insipidez de Miami Beach. As praias do Nordeste não devem nada às do Caribe, com a vantagem de não ter montes de turistas com máquinas fotográficas por perto.

Voltar às raízes, então, é isso: apurar os ouvidos para as palavras, confraternizar com a natureza, tentar colaborar através do jornalismo para resolver os infinitos problemas que afetam à região, da seca às enchentes, da pobreza extrema à falta de perspectivas, das injustiças sociais à impunidade das elites econômicas.

RC: Fred é jornalista e leitor compulsivo. Em quais fontes ele bebe? O que entorpece e o que deixa você careta?

FN: O que me entorpece é a previsibilidade, seja em textos, no cinema, na música ou artes plásticas. Nada mais frustrante do que encontrar o que se espera, em termos de autênticas obras de arte. As chaves para se evitar isto são, sempre, o estilo e a ousadia criativa. Não há temas, não há nacionalidades, não há estruturas, não há padrões a seguir, o que vale é o que se acrescenta ao que já existe, é a capacidade de ver e rever o que já existe de forma original e transformadora. “Palavras, palavras”, pode dizer o leitor, coberto de razão. Mas é bom relembrar que, além dos estudiosos, críticos e acadêmicos, os grandes criadores também teorizaram sobre o fazer artístico, a exemplo de Vargas-Llosa, T.S.Eliot, Brecht, Oscar Wilde e Ernesto Sábato. E eles são unânimes em afirmar o que escrevi acima, com melhores argumentos e palavras mais sábias.

Escrever bem é a soma de vários fatores, mas às vezes é pura necessidade de ganhar a vida, como Dostoiévski provou escrevendo obras-primas para pagar a conta da padaria. Quanto às influências jornalísticas, são poucas mas marcantes: Truman Capote, Joel Silveira, Mencken e Jack London, que, muita gente não sabe, era um repórter tão grandioso quanto o ficcionista que foi.

RC: Fred trabalha. É tradutor. No entanto, em seu livro, refere-se como um “não-linguista”. Corta e recorta recordações, frases e palavras, mas o engenho diário está no que parece óbvio, a tradução. Porém, há o mistério, a metáfora. Onde Fred Navarro se encontra com a língua e com a linguagem?

FN: Sou tradutor de inglês comercial ou jornalístico. Não traduzo ficção ou poesia porque é uma batalha para a qual não me considero preparado. Entre meus clientes estão a Rede Globo e o grupo argentino Bunge. Trabalho também para duas ou três editoras paulistas, faço revisão, edição, fotos para capas. E sou colaborador da revista cultural “Continente”, do Recife. Nos últimos dois anos priorizei o trabalho de concluir três peças de teatro que escrevia há tempos, agora estão prontas, em fase de revisão e até o final do ano pretendem encontrar quem as monte, em São Paulo ou no Recife. Quanto à pergunta, um detalhe: a chave para o “Dicionário do Nordeste” ter sido escrito está na memória, na sorte que tive de prestar atenção aos detalhes e guardá-los. Muitas citações do livro vieram das babás que se revezaram na casa de meus pais ao longo de minha infância. Elas eram quase todas da zona da mata, semi-analfabetas, jovens, e carregavam uma riqueza de vocabulário, uma expressividade no linguajar, que até hoje me espantam. A pobreza, as dificuldades econômicas e a falta de escolaridade não tiravam delas o conhecimento, o bom humor e a capacidade de aprender e de ensinar.

RC: Informação ou conhecimento? Fred se divide em momentos, situações?

FN: Informação não é conhecimento, já foi dito mil vezes. Ela só vira conhecimento quando incorporada ao seu patrimônio cultural. E informações inúteis não merecem fazer parte de patrimônio algum. Selecionar, pensar, incorporar o conteúdo, fazer de sua vida algo melhor a partir dele… Talvez seja esse o desafio. O problema é que na velocidade com que as informações são postas à disposição nos dias atuais, “tudo ao mesmo tempo agora” (que até poderia ser o lema do Twitter) já não basta. Na sociedade moderna, com seus terabytes de informação a um clique do mouse, difícil mesmo é encontrar o que se procura de forma rápida e eficiente. Desconfio que editores de conteúdo estarão entre os profissionais mais bem pagos nos próximos anos e décadas. Fica a dica para os que fazem ou querem ser jornalistas.

RC: Um prefixo, um novo mundo. “Reconhecimento”: o que é, para Fred Navarro?

FN: Reconhecimento é a gente fazer o que gosta e não se tornar dependente de ninguém, intelectual ou financeiramente. Tarefas árduas. No fundo, temos que nos reinventar a cada fase da vida, redesenhar projetos, refazer cálculos, reavaliar amizades e amores, recodificar verdades, alterar perspectivas. Sem isso, as pessoas correm o risco de perder tempo com bobagens de auto-ajuda ou diante da tevê por quase todo o tempo de lazer que têm. Mais do que lamentável, é desolador. E de uma inutilidade abissal.

RC: Pensar x refletir: como enxerga e como escuta estas palavras?

FN: Irmãs siamesas? Carne-e-unha? Corda-e-caçamba? Bebé-com-tomé? Não há como diferenciar, são o oposto do vazio, da compulsão pela palavra ou pela ação irrefletida.

RC: Qual a importância, para Fred, do passado? Como Fred gostaria que o passado fosse visto pelas pessoas ao seu redor?

FN: Como uma calça velha, azul e desbotada… Marcel Proust esgotou essa questão, no meu entendimento: o passado não passa de um filtro através do qual revivemos os melhores momentos de nossas vidas. Ele afirma que a vida e os fatos dela só adquirem sentido se vistos em perspectiva, depois de esmiuçados pela experiência e pela sabedoria que fomos forçados a ter ao longo dos anos. Viver algo com intensidade aos 8 anos de idade não é tão significativo quanto revivê-lo aos 48 ou aos 78 anos. Com 8 anos você nem sabe direito o que aconteceu, apesar da intensidade da emoção ou experiência vivida.

Aquilo marca, vai ficar, mas extrair as consequências e ensinamentos só depois de muita estrada. Mas a sociedade brasileira, a exemplo do que ocorre em todo o mundo, destina aos seus idosos um papel quase marginal, como se fossem um estorvo do qual não consegue se livrar. Não vêem a velhice como um somatório de sabedorias acumuladas e que poderiam ser úteis às pessoas e ao país. Nos cruzamentos de São Paulo, qualquer carro, de qualquer marca, de qualquer ano, vale mais do que a vida dos idosos que atropelam impunemente mesmo nas faixas de pedestres, que só servem quando não tem um automóvel passando por ela. T.S.Eliot, um dos grandes entre os maiores poetas da humanidade, escreveu que “o tempo presente e o tempo passado estão ambos talvez presentes no tempo futuro e o tempo futuro contido no tempo passado”. Quem não entender isso não vai entender muita coisa pela frente.

Siga Fred Navarro no Twitter: @frednavarro

Leia sobre o Dicionário do Nordeste na visão do jornalista Plínio Bortolotti. Clique aqui.

Entrevistas de Fred Navarro ao site Nordeste Web. Clique aqui e aqui.

5 thoughts on “Fred, o Navarro, por Rodrigo, o Coimbra

  1. Rodrigo,
    Agradeço a citação de meu modesto post. O merecimento, sem dúvida é pelo belo livro de Fred Navarro, “Dicionário do Nordeste”.
    Abraço,
    Plínio

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