O México, os Mortos e Don Lupe

Já disse o sábio Titelo: “a noite nunca será madrugada. Porque a natureza é jurídica”. A sentença pode soar como simplista demais, porém traz consigo um axioma indiscutível. Tão jurídica é que logo nascemos e começamos a caminhada rumo ao plano superior. Como bem registra os anais da Bíblia “do pó viestes, ao pó voltarás”.  Fiquemos neste post com a volta ao pó e, deste, a morte na visão mexicana.

Mas para citar o assunto – que no Brasil ainda é um tabu – é preciso ressaltar que o México é um dos países cuja civilização é uma das mais antigas nas Américas. Quem não se lembra do termo “civilização pré-colombiana” provavelmente matou aquelas aulinhas de História na escola. Indícios arqueológicos sugerem a ocupação humana do país há mais de 20 mil anos.

No girar do globo (e para não fugir do assunto) vieram – e se foram – os olmecas, os teotihuacanos, os maias, zapotecas, mixtecas, huastecas, purepechas, toltecas e, ufa, os ‘meshicanos’ – termo que, não sei quando, aderiu o “x” de Xuxa na forma escrita (talvez por um misto narcisista a la Professor Pasquale, o toque de um designer fresco metido a cult ou, quem sabe, uma visão ecologicamente correta e visionária de um ambientalista que mostrou a relevância para a preservação das matas com a economia de tinta).

No México, o Dia de Finados vai de 31 de outubro a 2 de novembro. São os Dias de Los Muertos, época de festa como nosso o carnaval – felizmente sem o Rebolation. Esta visão está diretamente ligada à preservação cultural que o país manteve.  As origens da celebração remontam há mais de 3 mil anos – era pré-Valderrama (e bota pré nisso) –  representada pelos indígenas da Meso-américa, assim como os astecas, maias, purépechas, nahuas e totonacas etc etc etc. “Naquele tempo” era comum a prática de conservar os crânios como troféus e mostrá-los durante os rituais. Simbolizavam morte e renascimento.

O festival que se converteu no Dias de Los Muertos era comemorado no nono mês do calendário solar asteca, o que seria hoje o início do mês de Agosto, e os festejos percorriam todo o mês (claro, eles não tinham internet). De acordo com relatos sobre a crença popular, nos dias 1 e 2 de novembro os mortos têm permissão divina para visitar parentes e amigos. Por isso, as pessoas enfeitam suas casas com flores, velas e incensos e preparam as comidas preferidas dos que já partiram.

La Catrina: caveiras 'imortalizadas' em forma arte pelo gravurista mexicano Don Lupe

Mas por que cargas d´água os mexicanos celebram com tanta alegria algo que se refere à perda de um ente querido? A Wikipédia registra:

Para os antigos mexicanos, a morte não tinha as mesmas conotações da religião católica, na qual as idéias de inferno e paraíso servem para castigar ou premiar. Pelo contrário, eles acreditavam que os caminhos destinados às almas dos mortos eram definidos pelo tipo de morte que tiveram, e não pelo seu comportamento em vida.

Desta forma, as direções que os mortos poderiam tomar são:

O Tlalocan, o paraíso de Tláloc, deus da chuva. A este lugar iam aqueles que morriam em situações relacionadas com água: os afogados, os que morriam atingidos por raios, os que morriam por doenças como a gota ou hidropsia, sarna ou pústula, bem como as crianças sacrificadas ao deus. O Tlalocan era um lugar de descanso e abundância. Embora os mortos fossem geralmente cremados, os predestinados ao Tlalocan eram enterrados, como as sementes, para germinar.

O Omeyocan, paraíso do sol, governado por Huitzilopochtli, o deus da guerra. Neste lugar chegavam apenas os mortos em combate, os escravos que eram sacrificados e as mulheres que morriam no parto. Estas mulheres eram comparadas a guerreiros, que já haviam combatido uma grande batalha – a de dar à luz – e as enterravam no pátio do palácio, para que pudessem acompanhar o sol desde o nascente até o poente. Sua morte provocava tristeza e alegria, já que, graças à sua coragem, o sol as levava como companheiras. Dentro da tradição centro-americana, o fato de habitar o Omeyocan era uma honra. O Omeyocan era um lugar de eterno gozo, no qual se celebrava o sol acompanhado com música, cantos e bailes. Os mortos que iam ao Omeyocan, depois de quatro anos, voltavam ao mundo, encarnados em aves de penas coloridas e bonitas.

O Mictlan, destinado a quem morria de morte natural. Este lugar era habitado por Mictlantecuhtli e Mictecacíhuatl, senhor e senhora da morte. Era um lugar muito escuro, sem janelas, de onde era impossível sair. O caminho para o Mictlan era tortuoso e difícil, pois para lá chegar, as almas deviam caminhar por diferentes lugares durante quatro anos. Ao longo deste tempo, as almas chegavam ao Chignahuamictlán, onde descansavam ou desapareciam as almas dos mortos. Para percorrer este caminho, o defunto era enterrado com um cão, o qual o ajudaria a cruzar um rio e chegar perante Mictlantecuhtli, a quem deveria entregar, como oferenda, trouxas de gravetos e jarras de perfume, algodão, fios coloridos e cobertores. Aqueles que iam ai Mictlan recebiam quatro flechas e quatro trouxas de fios de algodão. Por sua vez, as crianças mortas tinham um lugar especial, chamado Chichihuacuauhco, onde se encontrava uma árvore da qual os ramos pingavam leite para as alimentar. As crianças que chegavam lá voltariam à Terra quando sua raça fosse destruída. Desta forma, da morte nasceria a vida.

Homenagens como essa sao comuns no México no Dia de Finados - foto do álbum de Melissa Loei (Picasa)

Morte como Arte

No âmbito das artes, quando o assunto é morte em solo chicano, um nome a ser lembrado é o do gravurista José Guadalupe Posada. Nascido em Aguascalientes (Cidade do México), em 2 de Fevereiro de 1852, foi considerado pelo pintor Diego Rivera como o protótipo do artista do povo, seu defensor mais aguerrido e também considerado precursor do movimento mexicano de artes plásticas. Apaixonado pela caricatura política. Desenvolveu novas técnicas de impressão. Trabalhou e fundou periódicos importantes. Consolidou a festa do dia dos mortos, por suas interpretações da vida cotidiana e atitudes do mexicano por meio de caveiras atuando como gente comum. Abaixo, dois trechos de um documetário sobre o artsta.

Após sua morte em 1913, seu nome foi esquecido, embora o trabalho continuasse a aparecer eventualmente na imprensa popular mexicana. Seu trabalho foi redescoberto uma década mais tarde por Jean Charlot e outros artistas do muralismo e da oficina de gráfica popular. Suas obras se estenderam e foram reconhecidas fora das fronteiras do México, ganhando a Europa e toda América latina através da influência que representou para os muralistas.

O blog Don Lupe – homenagem ao nome do artista – traz mais informações sobre o gravurista com o projeto alcunhado La Muerte Ilustrada.

Dom Quixote de La Mancha - na visao de Guadalupe Posada

Sobre o assunto vale ainda conferir:

Fotos sobre Dia de Los Muertosclique aqui

Culinária: Receita do Pao dos Mortos – clique aqui

La Catrina: a caveira mais famosa na cultura da morte do México – clique aqui

2 thoughts on “O México, os Mortos e Don Lupe

  1. Nossa, muito bacana voltar para o banco escolar por meio deste seu texto fácil, gostoso de ler e com tantas referências adicionais. Parece trabalho de escola mesmo. Vou mostrar ao meu filho depois. Eu já sabia das comemorações aos mortos pelo povo mexicano, mas esta superaula foi muito bacana. Se todas as escolas tivessem um professor dedicado como você, que maravilha viver”. Parabéns! ;o)

    Vany Laubé ou, como vc me conhece melhor, @mosaicosocial

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