“O futuro de uma ilusão” – O embate entre religião e civilização

*Fred Navarro

Até que ponto a igreja católica (ou outra) tem o direito de se imiscuir em coisas tão privadas quanto o uso da razão ou a forma de sexualidade escolhida por alguém? Idolatrado por uns, odiado por outros, o Vaticano não prima por apostar suas fichas em nada modernizante desde meados dos anos 30 d.C., com a exceção ilustre do Concílio do Vaticano II convocado em 1962 pelo papa João 23.

No mundo atual, o islamismo provou que pode ir ainda mais longe em direção ao passado: a ameaça de morte que pesa há 21 anos sobre o escritor Salman Rushdie é o fato mais simbólico dessa arrogância absolutista, mas há muito mais: queimas frequentes de livros em praças públicas pelo Taleban no Afeganistão, mãos decepadas e cabeças cortadas no Iêmen e no Sudão, torturas incorporadas ao dia-a-dia da Nigéria e tantos outros países, as meninas sem escolas e as mulheres sem hospitais, os assassinatos de crianças e turistas na Argélia, a falta de partidos políticos e de imprensa livre. Todo esse aparato repressivo e desumano em nome de quê mesmo? Ah, sim, de conter a modernização e os valores ocidentais.

Tanto lá quanto cá, cabe a pergunta: o que está, na essência, por detrás de uma postura filosófica que se arvora em decidir pelas pessoas o que elas deveriam decidir por si próprias? E por que ela é tão popular, apesar de jogar contra a evolução intelectual e os interesses da humanidade? De Marx a Richard Dawkins, passando por Nietzsche, Sartre e Kierkegaard,  muita gente boa se debruçou sobre o tema. Mas, dentre a vasta literatura publicada sobre o assunto, escolhi um texto de Sigmund Freud chamado O futuro de uma ilusão (Die Zukunft einer Illusion), publicado em 1927. É curto, denso e, fora dos círculos psicanalíticos, pouco conhecido, apesar de espantosamente atual. Em 41 páginas, o “bruxo de Viena” desmonta a muralha teórica que justifica a maior parte das idéias, doutrinas e formas de prática religiosa. É instrutivo para crentes e leigos, doutores ou não no assunto.

A tradução utilizada aqui, de José Octavio de Aguiar Abreu, foi feita a partir da versão inglesa e não a partir do alemão original. Os méritos do texto a seguir são obviamente de Freud, fiz apenas uma sinopse do livro. As imperfeições, claro, devem ser debitadas ao autor do artigo.

Arte de Angel Boling

O problema

O texto começa com uma indagação a respeito do passado e do futuro da humanidade. Depois de alertar para os perigos de um empreendimento desse porte, Freud aponta os fatores que normalmente diferenciam a civilização humana do reino animal: o controle da natureza para satisfazer suas necessidades, a distribuição da riqueza produzida e a elaboração de leis que permitam as relações entre os homens.

O preço da vida em grupo é alto, exige renúncias de todos os tipos, sacrifícios pessoais enormes, mas sem isso a civilização não existiria. Para Freud, a essência da vida civilizada não estaria tanto na questão do controle efetivo da natureza e sim na de saber até que ponto “é possível diminuir o ônus dos sacrifícios instintuais impostos aos homens, reconciliá-los com aqueles que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação”. São duas as razões básicas que explicariam a coerção civilizatória: os homens não são espontaneamente amantes do trabalho; e suas paixões costumam ser mais fortes do que seus argumentos.

E quais são esses desejos instintuais, poderosos, primitivos, que precisaram ser tão duramente reprimidos? Os mais fortes: o canibalismo, o incesto e a ânsia de matar. Segundo Freud, só o primeiro parece extinto nos tempos modernos,: “A intensidade dos desejos incestuosos ainda pode ser detectada por detrás das proibições contra eles e, sob certas condições, o matar ainda é praticado e, na verdade, ordenado, por nossa civilização.” Bingo!

Freud aprofunda a discussão ao afirmar que há uma tendência histórica para que a coerção externa seja internalizada. O superego seria uma espécie de agente especial que incluiria a coerção entre seus mandamentos. As crianças passam por isto (fases selvagens, instintivas, agressivas) e depois se tornam seres morais e sociais. E não são de se jogar fora as vantagens culturais quando esse processo civilizatório acontece. As pessoas passam de opositoras a agentes da civilização: quanto maior seu número em determinada sociedade, mais forte é sua cultura e mais ela pode dispensar medidas coercitivas.

O problema se complica diante de um fato: a maior parte dos homens nunca desfrutou da riqueza produzida pelas gerações sucessivas que passaram pela humanidade, da idade das cavernas até os dias atuais. A hostilidade instintiva, natural, que vem da pré-história, encontra energia renovada entre os desprovidos de posses de todas as épocas. A resposta da civilização contra os pobres sempre foi o aumento da coerção, da repressão e neste jogo-de-empurra os séculos e os milênios se passaram com um custo de sofrimentos desnecessários e vidas ceifadas absurdamente que não é difícil de imaginar.

Freud garante que as compensações para tanto sacrifício existem. Na forma de ideais, de realizações artísticas e de ideias religiosas. Ou seja, na forma das ilusões criadas pelos humanos.

Desafio: humanizar a natureza

A batalha travada pelos homens pela sobrevivência pessoal é idêntica aos problemas que a civilização enfrenta na sua luta sem fim contra a natureza. Freud aqui põe o dedo na ferida: o indivíduo reage à civilização com hostilidade, enfrenta-a, se enfurece, desafia, corre riscos e paga quase sempre por isso. Mas como defender-se dos poderes da natureza? A solução gerada ao longo do tempo veio de tentativas e erros: aproximar-se dela, humanizá-la. Tudo bem, na hora do tsunami ou do terremoto feroz o homem continua indefeso, mas não mais paralisado. A partir da “aproximação” já pode tentar algo, nem que seja reagir. Há um antecedente mais do que clássico para isso: crianças recém-nascidas sentem o mesmo em relação aos pais (motivos para temê-los e necessidade de proteção). O homem primitivo, com seus justos temores, concedeu à natureza o caráter de um pai. E não era uma força qualquer: era um deus todo-poderoso.

Os séculos se passaram, a natureza perdeu seus traços humanos, mas o desamparo do homem permaneceu, assim como o anseio pelo “pai”. A natureza aqui e ali fugia ao controle dos deuses mas estes compensavam ao “olhar” cada vez mais para os pobres humanos. Formou-se, então, o “corpo das idéias religiosas” para proteger o homem em dois sentidos: contra os perigos da natureza e contra o perigo representado pelos próprios homens.

Os diversos deuses foram se agrupando, até que restou um, que vela por nossas almas (na certa, a parte mais importante do corpo) e nos garante a vida eterna. Essas ideias passaram por um longo processo de desenvolvimento, diversas civilizações a elas aderiram. São consideradas por muitos o bem mais precioso do homem, são mais valorizadas do que a ciência e a arte. Por quê? De onde vem o seu valor? E o seu fascínio? Freud reafirma nesse ponto que o homem, ao personificar forças naturais, está seguindo um modelo infantil. Desde a primeira infância, aprendeu que a melhor forma de influenciar alguém é estabelecendo alguma forma de relacionamento. Primeiro a mãe, que o alimenta, depois o pai, porque é mais forte, tornam-se objetos amorosos e servem de proteção contra os perigos externos.

Fato idêntico ocorre com a religião. A pessoa em crescimento, ao descobrir que está condenada a permanecer criança para sempre e que não poderá passar sem proteção contra os poderes superiores nos quais acredita, empresta a tais poderes características pertencentes à figura do pai. Segundo Freud, ela “cria para si própria os deuses a que teme”. O anseio pelo pai equivale ao anseio de proteção contra as consequências de sua debilidade humana.

O texto não discute com profundidade a idéia do “pai”, este não é o seu objetivo e sim o corpo acabado das ideias religiosas tal como foi transmitido pela civilização aos indivíduos, o que as pessoas em geral entendem como “a sua religião”.

O pêndulo de Foucault

“As ideias religiosas são ensinamentos e afirmações sobre fatos e condições da realidade externa (ou interna) que nos dizem algo que não descobrimos por nós mesmos e que reivindicam nossa crença.” Elas abordam assuntos que despertam o interesse de todos, como a vida e a morte, e por isso são populares. Mas, Freud alerta, ensinamentos escolares também exigem certa crença, com a diferença de que alinhavam argumentos a seu favor. Por exemplo, a forma circular da Terra pode ser provada pelo “pêndulo de Foucault” (em 1851, J.B.L. Foucault demonstrou o movimento diurno do planeta por meio de uma espécie de giroscópio), pelo comportamento do horizonte, pela circunavegação. Quando escreveu o texto, no início do século passado, fotos de satélites ou tiradas da estação orbital não estavam disponíveis. De qualquer forma, sabemos que não é necessário percorrer a Terra de ponta a ponta para compreender que ela é uma esfera imperfeita.

Se for aplicado o mesmo método às questões religiosas, aos fundamentos da reivindicação a ser acreditada, encontramos três respostas básicas que se combinam entre si: 1) os argumentos têm uma antiga tradição de crença por parte de nossos antepassados; 2) há provas transmitidas desde os tempos antigos; e 3) é proibido levantar a questão de sua autenticidade. Ao longo da história, penalidades severas (prisão, tortura, exílio, expropriação dos bens, pena de morte) foram aplicadas contra incontáveis pessoas que ousaram questionar tais “verdades”, até épocas bem recentes, no Ocidente, porque no Oriente não é preciso dizer que elas continuam sendo aplicadas, no Irã, na Arábia Saudita, em quase todos os países que adotaram o islamismo como política de Estado.

Voltando ao texto, o item 3 é o que parece mais insólito a Freud: “Uma proibição deste tipo só pode ter uma razão – que a sociedade se acha bastante consciente da insegurança da reivindicação que faz em prol de suas doutrinas religiosas. Caso contrário, decerto estaria pronta a colocar os dados necessários à disposição de quem quer que desejasse chegar à convicção.”

Freud não perdoa e questiona facilmente o item 1 ao dizer que nossos antepassados eram mais incultos e ignorantes do que nós, acreditavam em coisas que não se acredita mais no mundo de hoje e desconheciam coisas fundamentais a que temos acesso. Faz o mesmo com o item 2: as “provas” (a exemplo do “santo sudário”, um conto-do-vigário comprovado, ou os “segredos de Fátima”, em Portugal, outro conto-do-vigário clássico) são normalmente falsificadas, cheias de contradições e imprecisões. E garante que não serve de argumento o fato de o conteúdo e as palavras religiosas originarem-se de “revelações divinas”. Esta afirmativa, diz ele (e podemos aqui adivinhar um sorriso maroto no rosto do doutor Freud), “é uma das doutrinas cuja autenticidade está em exame e nenhuma proposição pode ser prova de si mesma”.

Uma primeira conclusão: das informações existentes no patrimônio cultural da humanidade, as que envolvem a crença religiosa são as menos autênticas e ao mesmo tempo as mais apreciadas, e justamente elas, que poderiam resolver problemas significativos, transcendentais, solucionar enigmas do universo, reconciliar a humanidade com os seus sofrimentos e outros problemas desta magnitude.

Estas ideias, “apesar de sua incontrovertível falta de autenticidade”, exerceram e ainda exercem a mais forte influência sobre a maioria das pessoas. Para Freud, se trata de um problema psicológico. E ele repete a pergunta: onde reside a força interior dessas doutrinas? A que devem sua eficácia?

Desejos, delírios, ilusões

“Proclamadas como ensinamentos, não passam de ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses desejos.” O raciocínio de Freud percorre um longo caminho, desde o desamparo infantil que despertou a necessidade do pai, depois o desamparo adulto pela vida a fora, quando foi preciso arranjar outro pai, mais poderoso e que de quebra trouxesse com ele vantagens adicionais. Que tal um governo da “Divina Providência” que diminuísse o medo ante os perigos da vida? Ou uma ordem moral mundial que assegurasse a justiça entre os homens? Se possível, não dava para garantir também a vida eterna, prolongando a existência terrena?

Aqui, Freud abre um parêntese esclarecedor. A ilusão não é, necessariamente, um erro. Cita que Aristóteles errou ao acreditar que insetos nasceriam do esterco, mas Colombo caiu em ilusão ao crer que achara um novo caminho para as Índias. Este era o seu desejo. Outra ilusão é a difundida crença de que crianças não têm sexualidade. Esta é a vontade de seus pais. “O que é característico das ilusões é o fato de se derivarem de desejos humanos”, escreve e em seguida explica porque as doutrinas religiosas podem ser comparadas aos delírios, consideradas as diferenças psicológicas: elas são improváveis e incompatíveis com tudo que foi descoberto sobre a realidade do mundo. “É desnecessário dizer que todo aquele que partilha um delírio jamais o reconhece como tal.” Freud acerta mais uma vez. Em relação à maior parte dos assuntos os homens não se comportam irresponsavelmente, não se contentem com argumentos frágeis para as opiniões e posições que assumem. É curioso, mas apenas se permitem isso quando se voltam para assuntos tão importantes, tão “sagrados”.

A ciência sabe, aproximadamente, em que períodos e por quais tipos de homens foram criadas as doutrinas religiosas. A religião contribuiu, não há dúvida, para domar instintos associais, mas parece que isto não foi suficiente, apesar dos excessos cometidos, das fogueiras do Santo Ofício e do Index Prohibitorum. O espírito religioso dominou a humanidade durante milhares de anos, teve tempo de sobra para demonstrar o que podia alcançar. Se houvesse conseguido tornar feliz a maioria da humanidade, transformá-la em veículo de civilização, não se perderia tempo em combatê-lo. Mas o que vemos em volta?, pergunta Freud A maior parte vive insatisfeita e infeliz com a civilização, considerando-a um jugo, um castigo. À objeção de que esse estado de coisas deve-se ao fato de a religião ter perdido parte de sua influência justamente por causa dos avanços científicos, Freud responde: não é certo que os homens eram mais felizes antes, nas épocas em que se achava sob a poderosa influência das doutrinas religiosas. Mais morais certamente não foram: “Em todas as épocas, a imoralidade encontrou na religião um apoio não menor que a moralidade.” Inúmeras concessões foram feitas à natureza instintual do homem. Ou seja, se as realizações da religião com respeito à felicidade humana, sensibilidade à cultura e controle moral não são melhores do que as que vemos atualmente, pode-se desconfiar que alguma coisa falhou, que talvez todos estejam superestimando seu papel e sua real necessidade para os homens.

Ignorância x instrução

Freud desconhecia obviamente as estatísticas atuais sobre o assunto, mas, com a exceção notável dos Estados Unidos, a influência da religião diminuiu com intensidade entre os que têm acesso à informação e ao patrimônio cultural da humanidade. É um fato evidente o esvaziamento das igrejas, a diminuição do interesse pelo clero e a influência declinante do Vaticano em toda a Europa moderna. O papa Benedito está aí para provar, ele foi eleito exatamente para recuperar o prestígio da igreja católica por lá, missão quase impossível, no meu entendimento. E esse declínio não ocorreu e ocorre porque as promessas da igreja diminuíram e sim porque as pessoas deixaram de acreditar nelas. É simples assim. A civilização pouco tem a temer das pessoas instruídas, das que trabalham com o cérebro. Nelas, motivos religiosos foram substituídos por motivos seculares, coisa bem diferente do que ocorre com a grande massa dos não-instruídos, dos que têm motivos para serem inimigos da civilização.

O problema é que, cedo ou tarde, a maioria saberá o que está por trás das doutrinas religiosas: “Quanto maior é o número de homens a quem os tesouros do conhecimento se tornam acessíveis, mais difundido é o afastamento da crença religiosa, a princípio apenas de seus ornamentos obsoletos e objetáveis, mas depois, também, de seus postulados fundamentais.”

Segunda conclusão: ou as massas perigosas são severamente submetidas e mantidas afastadas de qualquer chance de despertar intelectual, ou o relacionamento entre a civilização e as religiões terá de sofrer uma revisão fundamental.

Freud, com inteligência e oportunidade, cita o exemplo da proibição “Não matarás” para iluminar a distinção entre o que é real e o que é ilusório. Os perigos da vida e da natureza unem os homens numa sociedade que proíbe o assassinato, reservando a si o direito à morte comunal dos violadores da proibição. Isto é o real. A ilusão é assegurar que ela deve ser cumprida porque consta dos Dez Mandamentos e porque foi decretada por Deus. Se não se atribuísse a Deus o que é próprio da vontade humana, assumindo suas razões históricas e sociais, “junto com sua pretensa santidade, esses mandamentos e leis perderiam sua rigidez e imutabilidade”. Todos compreenderiam que foram feitos para servir a seus interesses e não para subjugá-los.

Aqui Freud retoma a analogia entre neuroses infantis e ilusões religiosas. As crianças não atingem o estágio civilizado sem passar por uma fase neurótica, que pode ser mais ou menos evidente. A maior parte das neuroses é superada espontaneamente, mas algumas permanecem. A humanidade, da mesma forma, passou por algo parecido e por motivos idênticos: a exigência de renúncias instintuais que não poderiam ser reprimidas pelo racional, só por atos de repressão.

A religião seria, para a humanidade, a neurose obsessiva das crianças. Surgiu do complexo de Édipo, do relacionamento com o pai primitivo. Se isto for correto, o afastamento da religião está condenado a ocorrer com a inevitabilidade do processo de crescimento, de superação da neurose. A humanidade estaria agora na junção, no meio desta fase de desenvolvimento.

Não é de hoje que a compreensão da história mostra os ensinamentos religiosos como “relíquias neuróticas”. Para Freud, chegou a hora de substituir os efeitos da repressão pelos resultados da operação racional do intelecto. Não é preciso renunciar à verdade histórica para mostrar os fundamentos racionais para a civilização.

Catecismo x sexualidade

O texto então sugere que, neste ponto, pode ser levantada uma questão: se os homens são pouco acessíveis aos argumentos racionais e dominados por seus desejos instintuais, por que privá-los de algo que os satisfaz emocionalmente, substituindo-o por argumentos racionais? Freud concorda: os homens são realmente assim. Mas, pergunta-se, têm de ser assim? A natureza mais íntima deles tem realmente necessidade de tais ilusões? Fornece o exemplo entre o contraste da inteligência radiante de uma criança sadia e a debilidade intelectual de um adulto médio. A “formação religiosa” seria parcialmente responsável por essa relativa atrofia? Para ele, os ensinamentos religiosos são dados a crianças numa idade em que não estão interessadas nem capacitadas para entender seus significados: “Penso que seria necessário muito tempo para que uma criança, que não fosse influenciada, começasse a se preocupar com Deus e com as coisas do outro mundo.”

Ainda hoje, em boa parte do planeta, no Ocidente e no Oriente, a influência religiosa prematura se faz presente por imposição, por ato do Estado ou cobrança da “sociedade”, e não por uma opção consciente das famílias. Não é difícil concluir que na época em que o intelecto da criança desperta, as doutrinas religiosas já se tornaram inexpugnáveis, transformaram-se em dogmas, ao menos para a maioria. Dawkins afirma que não existem crianças católicas ou islâmicas, o que existe são crianças filhas de pais católicos ou islâmicos que impuseram a seus filhos noções e preocupações filosóficas típicas de adultos que não cresceram intelectualmente e que permanecem à procura do “pai”.

Freud bate na mesma tecla: só há uma forma de controlar a natureza instintual e ela se dá através da inteligência. Pessoas sob o domínio de proibições não atingem o ideal psicológico, o terreno da inteligência, mas ele não tem ilusões quanto ao fato de que a educação não-religiosa não é fácil de ser atingida. Para ocorrer, teria que ser admitida toda a extensão do desamparo humano, assim como a insignificância terrestre na estrutura do universo. Os homens teriam que entender que não são o centro da criação, nem objetos de cuidados da “providência divina”. Teriam de reconhecer estar na situação de uma criança que abandonou a casa paterna, onde estava tão bem instalada, tão “confortável”.

“Mas não há dúvida de que o infantilismo está destinado a ser superado. Os homens não podem permanecer crianças para sempre; têm de, por fim, sair para a vida hostil. Podemos chamar isso de ‘educação para a realidade’.” Ao alertar que talvez não resistam ao teste, Freud afirma que já é alguma coisa os homens estarem entregue a seus próprios recursos e, além disso, o conhecimento científico aumenta a cada década e a soma dos recursos para enfrentar os problemas se enriquece à medida que o tempo vai passando. O barbudo de Viena utiliza uma expressão forte ao dizer que “os homens, como arrendatários da Terra, têm de aprender a cultivar seu terreno de modo a sobreviver. Só desta forma um dia a vida será tolerável para todos e a civilização perderá seu caráter opressivo”. Com uma citação de versos do poeta alemão Heine, Freud recomenda com sutileza que os homens olhem para os próprios pés e que deixem os céus para os pardais.

O fim

Na conclusão do texto, ele diz que o espírito religioso costuma ser impaciente e egoísta e isso explica porque o estado de “bem-aventurança” tem de começar logo após a morte (é o que dizem as doutrinas). “Logos”, a Razão, diz que esses desejos serão atendidos, mas gradativamente, num futuro imprevisível e para uma nova geração de homens. Este é o motivo porque as ideias religiosas estarão um dia irremediavelmente condenadas a desaparecer. “A longo prazo, nada pode resistir à razão e à experiência, e a contradição que a religião oferece a ambos é palpável demais.”

Talvez resida neste ponto o único erro de perspectiva de Freud. A intensidade da experiência religiosa teve um aumento significativo na segunda metade do século passado. Amplas massas desamparadas no terceiro mundo, sem educação, sem cultura, sem poder político, aderiram em peso às políticas de Estados religiosos que traíram os interesses de seus povos ao não lhes dar voz política e a lhes reprimir quaisquer possibilidades de não-adesão às imposições religiosas, quase sempre retrógradas, opressoras, discriminadoras contra as mulheres e os homossexuais, cerceadoras das liberdades de opinião e de crença. Mesmo na América rica, branca ou negra, com acesso à informação farta, a massificação religiosa e a opressão que exercem contra os não-religiosos nos dias atuais dá a medida da intransigência e obsessão com a vida particular do outro, que deveria ser respeitada em qualquer sociedade democrática.

Freud era um cientista sério, mas também era um sonhador. O final de seu livro é digno de um grande escritor, mas tem um viés romântico mais apropriado aos poetas e filósofos. Isto fica evidente quando ele garante que a voz do intelecto é frágil, mas não descansa enquanto não consegue uma audiência, e que este é um dos poucos pontos em que se pode ser otimista quanto ao futuro da humanidade, pois é “dele que se derivam as esperanças”. Mas logo em seguida admite que a educação não-religiosa talvez não altere tanto assim a natureza psicológica do homem. “Logos” talvez não seja tão poderoso, mas não será por isto que os homens perderão o interesse pelo mundo e pela experiência da vida.

A ciência, ao contrário das doutrinas religiosas, já deu provas de que não é uma ilusão. Com a palavra, Freud: “Censura-se nela o pouco que revelou e o abismo sem fim que há por revelar. Os que argumentam desta forma não querem levar em conta sua pouca idade, a dificuldade dos primeiros passos e o quão infinitamente pequeno foi o período de tempo que decorreu desde que o intelecto humano ficou suficientemente forte para as tarefas que ela estabeleceu”.

Última conclusão, não de Freud, mas do autor do artigo: quem quiser pode tentar, mas não há como conciliar razão e fé. Elas têm estruturas diferentes, naturezas distintas. Além disso, caminham em sentido contrário e têm objetivos opostos. Uma existe para explicar, a outra para confortar. Uma esclarece os porquês, a outra se apega a dogmas que insistem em não apresentar uma explicação razoável. Não é por acaso que tantos cientistas e artistas e livres pensadores, ao longo da história humana, se deram tão mal nas mãos de tantas igrejas.

*Fred Navarro, 53 anos, é jornalista e escritor, autor dos livros “Assim falava Lampião” e “Dicionário do Nordeste”. Recifense, mora em São Paulo há 22 anos. Não acredita em duendes, bruxas, anjos, cristais de Bach, astrologia, fantasmas, espíritos, lobisomens, deuses e mulas-sem-cabeça, mas respeita solene e democraticamente todos os que acreditam.

2 thoughts on ““O futuro de uma ilusão” – O embate entre religião e civilização

  1. Parabéns, caro Fred !
    Muito profundo o seu artigo, revela o caráter de seriedade com que consideras a pesquisa e respeitas a informação. O senhor sim, tem artigos profissionais que são dignos de serem apreciados.
    Adorei o artigo e considero-o um crítico e um jornalista de grande respaldo profissional, seu conhecimento e sua pesquisa são dignos de serem lidos, pois são, ao meu ver material de pesquisa.

  2. Brilhante, um espetáculo, chega a encantar sua escrita, pensamento, interpretação….Meus parabéns.. Mestre!

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