Por trás de uma letra há um universo

Quem gosta de Chico Science e sua Nação Zumbi com certeza já ouviu e talvez tenha até cantado, dançado e cavado chão ao som de “Banditismo por uma Questão de Classe”. Na letra de Chico, a narraçao da criminalidade valendo-se de uma lenda e de dois célebres personagens que deram forma e serviram de alicerce para sua narrativa. São eles: Biu do Olho Verde, Galeguinho do Coque e a lenda da perna cabeluda.

Ed Cavalcante, que em seu blog se descreve como “um cara simples que gosta de coisas simples e de pessoas que ajudam a tornar o mundo um lugar mais agradável”, conta a história destes criminosos que atuaram nas décadas de 70 e 80 em Pernambuco. Em 2009, o autor escreveu:

Biu do Olho Verde, um jovem de 17 anos, nascido nos Bultrins, periferia de Olinda, além de assaltante era torturador, gostava de submeter suas vítimas – na grande maioria, mulheres – a torturas que deixariam os roteiristas de “Jogos Mortais” no chinelo. Uma das histórias que contam sobre ele diz que, depois de assaltar uma mulher ele perguntou: “quer levar um tiro ou um beliscão?” Logicamente, aterrorizada pela possibilidade de ser baleada, a mulher optou por um beliscão. Ele, então, sacou de um alicate e arrancou os mamilos dos dois seios da mulher, que ficou agonizando de dor. O radialista Jota Ferreira, que fazia muito sucesso na época com um programa no rádio e na tevê chamado “Blitz, Ação Policial”, declarou ter-se encontrado com Biu do Olho Verde e que o mesmo desmentira todas as histórias envolvendo torturas com alicate. Em seu blog, Jota publicou uma declaração, atribuída ao bandido, que teria sido dada num encontro que os dois tiveram na década de 80:

“Jota, eu não sou ‘fulêro’. Sou macho e esses cabras da Polícia são tudo maricas, ‘tendeu’?…Num adianta, ‘véi’, tu ficar me xeretando porque tu não vai ‘arrumá’ nada, sacou? Num sei nem que danado é um alicate de unha, porra..! Nunca ameacei ninguém de beliscar os peitos se não me der dinheiro, ‘tendeu’? Agora, já mandei uns cinco pro inferno, tá ligado?. Eu gosto de dinheiro e ‘mulé’… e tem que ser boa, visse? ‘Mulé’ merda eu nem paro..! Pergunta às ‘mulé’ se eu maltratei alguma delas..!”

“Galeguinho do Coque”, que nasceu “Everaldo Belo da Silva”, começou a praticar pequenos furtos ainda adolescente. Assim como Biu, ele era diferente do esterótipo dos meninos de rua incutido na mente de quase todo mundo: menino negro ou mulato. Como o próprio apelido denunciava, ele era galego e muito “paquerado” pelas meninas. O que tornou o Galeguinho do Coque famoso foram as suas espetaculares fugas. Ele assaltava e fugia para o Coque, ninguém o encontrava. Em 1971, entretanto, ele foi preso e condenado. Na cadeia, converteu-se à religião evangélica e abandonou o crime. Apareceu na tevê várias vezes falando de Deus e maldizendo sua pregressa vida de crimes. Everaldo Belo mudou para o bairro Alto do Jordão, na periferia do Recife, onde abriu um pequeno comércio.

Mas, para entender o todo de Chico na letra de “Banditismo por uma questão de classe”, é preciso também saber como se originou a Lenda da Perna Cabeluda, que publico trechos do texto de Fernando Dannemann inserido em seu espaço virtual.

Muitas são as explicações sobre a origem da lenda. Uma a vincula ao achado de uma perna humana cabeluda que se encontrava boiando no rio Capibaribe, caso que por não ter sido solucionado pela polícia transformou-se em prato cheio para a imprensa. Que inicialmente alimentou a esperança de encontrar alguém capaz de clarear o assunto, e por isso perguntou em suas páginas: De onde veio a perna? De quem era ela? Como foi parar no rio? Quem a amputou? Mas em vão…

Surgiu então a proposta da criação de versões fantasiosas, sensacionalistas, porque, afinal de contas, o jornal precisava atrair a atenção de alguma forma, para poder vender seus exemplares. Foi quando se começou a dizer que a perna mal-assombrada corria atrás das pessoas nas ruas da capital pernambucana, tudo avalizado pelo depoimento de “testemunhas” que afirmavam terem sido perseguidas por ela. E assim continuou sendo feito por algum tempo, até que a brincadeira cansou, e com isso os relatos sobre a perna cabeluda foram suspensos. Mas o povo não a esqueceu porque os guardiões das idéias, artistas e escritores, em geral, mantiveram-na viva na memória dos recifenses.

Bráulio Tavares, natural de Campina Grande, Paraíba, escritor, poeta, compositor, roteirista e colunista de renome, dá uma outra versão ao assunto: Diz ele, em seus escritos, que:

“Entre as lendas urbanas mais curiosas do Nordeste está sem dúvida a da Perna Cabeluda, uma entidade sobrenatural que teria assombrado as ruas do Recife durante a década de 1970. Aparecendo onde menos se esperava (e por falar nisso, onde é que alguém esperaria que aparecesse?), esta criatura era o oposto-simétrico do Saci Pererê. Ou seja, era uma perna-sem-pessoa, em vez de uma pessoa-sem-perna. Surgia pulando (eu já ia dizer “pulando num pé só”), atacava os transeuntes, dava chute em todo mundo, e depois fugia pulando. Foi cantada em verso e em prosa. Apareceu como protagonista em folhetos de cordel como ‘A Perna Cabeluda’ de Tiúma, ‘São Lourenço’ de José Soares, inclusive um em que ela enfrentava outra criatura mítica, ‘A Véia Debaixo da Cama e a Perna Cabeluda’ de José Costa Leite. Apareceu também em um vídeo de Marcelo Gomes, ‘A Perna Cabeluda’ (1995). Figurou em shows de Chico Science & Nação Zumbi: Chico dançava com uma perna de pano estufada, e depois a jogava no meio da platéia. Eu próprio a utilizei como tema num curta para TV de 40 minutos para o programa Viva Pernambuco, em 1996, dirigido por Romero de Andrade Lima e Cláudio Assis.

“A Perna Cabeluda é um bom exemplo de como surgem essas criaturas folclóricas. Uma vez eu estava em Recife conversando com o escritor Raimundo Carrero, que me deu uma versão para o surgimento dessa lenda. Ele e Jota Ferreira tinham um programa de rádio (pelo que me lembro ele era redator e Jota Ferreira o apresentador, mas posso estar enganado). E uma noite, entre uma música e outra deram uma notinha humorística, mais ou menos assim: ‘Pois é, meu amigo, a vida no Recife não anda nada fácil!… Chega agora à nossa redação a notícia de que Fulano de Tal, guarda-noturno, chegou em casa depois de uma jornada de trabalho e deitou-se para dormir ao lado de sua esposa. Ouviu um barulho, e ao olhar para baixo viu uma perna cabeluda embaixo da cama!’

“A intenção era sugerir, com a imagem da perna cabeluda, a presença do ‘urso’, do amante da esposa. A nota provocou muitos risos, e no dia seguinte, eles voltaram à carga. ‘E atenção, minha gente… Sicrano de Tal, morador da Imbiribeira, chegou em casa de viagem, e para sua surpresa viu a perna cabeluda fugindo pela porta da cozinha!’. E aí não parou mais. Usada inicialmente como uma sinédoque visual (a parte pelo todo), a perna acabou ganhando vida própria. Isto não quer dizer que qualquer coisa inventada vire automaticamente uma lenda. Neste caso específico, virou porque a imagem resultante ficou ao mesmo tempo absurda e engraçada, ou pelo menos assim pareceu à galera onde a história começou a circular (ouvintes de rádio dos subúrbios recifenses). Imagens e figuras semelhantes são lançadas diariamente no caldeirão cultural. É um processo aleatório. Umas pegam, outras não. ‘Cultura popular’ talvez se defina por este aspecto aleatório, onde não se pesquisa, não se planeja, e as criações dão certo meio que por acaso”.

E assim a história continua sendo narrada aqui, ali e acolá, e cada vez que isso acontece o mito da Perna Cabeluda aumenta um pouquinho mais.

Confira, abaixo,  a música de Chico Science com outros olhos… e ouvidos, obviamente:

4 thoughts on “Por trás de uma letra há um universo

  1. noossa!!! muito legal essa história adorei!!!
    principalmente pq eles buscaram captar todos os detalhes, para ficar uma história bem complexa
    PARABÉNS PARA QUEM PUBLICOU ESSE TEXO
    MUITO BOOOM!!!

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