O rufar dos tambores

Fred Navarro

War Requiem. Roteiro e direção: Derek Jarman. Fotografia: Richard Greatrex. Música: “War Requiem”, de Benjamin Britten. Com: Laurence Olivier, Tilda Swinton, Nathaniel Parker, Nigel Terry e Owen Teale. Grã-Bretanha, 1988. 92 min.

War Requiem é conduzido pela obra sinfônica de Benjamin Britten (1913-1976), um oratório feito para a cerimônia de reinauguração em 1962 da catedral de Coventry, que teve sua estrutura do século 14 destruída durante os ataques alemães a Londres.

As estruturas da música e do filme giram em torno da vida e dos poemas de Wilfred Owen, morto aos 27 anos na frente francesa dias antes da assinatura do armistício que colocaria um fim à I Guerra Mundial. A música é onipresente e serve de moldura para Jarman provocar o espectador e alertá-lo para o óbvio: uma guerra, qualquer guerra, é o ato que revela a pior forma da violência humana, a cometida em massa contra pessoas que não podem se defender, populações civis, crianças, idosos.

Quando foi lançado, no final dos anos 80, este filme de imediato passou a fazer parte dos clássicos antibélicos já forjados pelo cinema, ao lado de Apocalypse Now, Hiroshima Mon Amour, Agonia e glória, MASH, Cinzas e diamantes, Dr.Strangelove e A guerra acabou, entre não muitos outros. Com uma perturbadora diferença: a ausência de diálogos.

Regimento de Wilfred Owen - foto da web

É o próprio Benjamin Britten que rege o Coral e a Sinfônica de Londres, além de três pesos-pesados do canto, a soprano Galina Vishnevskaya, o tenor Peter Pears e o barítono Dietrich Fischer-Dieskau. Enquanto a intensidade da música toma conta do filme, o que se vê na tela são imagens vindas diretamente do inferno. Resultado da pesquisa que o diretor e sua equipe fizeram no Imperial War Museum, cenas de documentários das guerras reais se mesclam às feitas em estúdio e se sucedem em cores pálidas ou vívidas, em preto & branco ou sépia, nítidas ou desfocadas, em Super8, 16mm e 35 mm, não importava o formato, não interessava de qual guerra, Jarman colou, editou o material e construiu um mosaico simples e eficiente sobre a estupidez humana, um puzzle como há tempos não se ousava colocar nas telas. De 1988 para os dias de hoje, o que foi feito de novo sobre o assunto? Talvez o sérvio-bósnio Terra de ninguém, de Danis Tanovic, ganhador do Globo de Ouro e do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2002. Talvez Pecados de guerra (Casualties of war, 1991), de Brian de Palma.

Nathaniel Parker representa Wilfred Owen e nós o acompanhamos por todos os estágios da guerra, da convocação à morte. Não contente com isso, o filme volta-se para seu passado e mostra a presença da guerra no cotidiano da sociedade britânica, nas escolas, casas, hospitais. Seu olhar curioso de menino vai ceder o lugar, ao longo do filme, ao olhar de morto-vivo com que escreveu seus últimos poemas em meio ao pesadelo das trincheiras.

Sir Laurence Olivier tem aqui o seu último papel no cinema, uma breve cena inicial em que surge numa cadeira de rodas como um soldado veterano e paralítico exibindo suas medalhas para a enfermeira enquanto ouvimos um poema de Owen a descrever a destruição à sua volta, as perdas de tantas vidas mal saídas da juventude e a antevisão de seu próprio fim.

Wilfred Owen, que entre a honra e a espada, traçou sua própria guerra por meio de poemas

O poema, Outro para a juventude condenada, pergunta: “Estes que morrem como gado / recebem como toques fúnebres / apenas o terrível ressoar / das armas de fogo?” Olivier morreria meses depois do final das filmagens, e a sua despedida não deixa de ter lá o seu significado. O velho leão ferido sai de cena com suas medalhas. Esse mundo não é mais o dele…  Mas a sua despedida é espantosa: enquanto ouvimos o poema, ele não larga um sorriso e um olhar que destacam o orgulho infanto-juvenil com que exibe suas medalhas. Quem resumiria melhor a insanidade e a loucura decorrentes de ter estado em um campo de batalha e de ter saído de lá sem as pernas?

Jarman nos deu as boas-vindas. A partir de agora, é obrigatório apertar o cinto de segurança. Bombas vão explodir sobre cidades, portos, campos e praias… Intermináveis cenas se sucederão nas trincheiras, nos hospitais dos fronts, nas enfermarias improvisadas, na ruas e estradas… Algumas destas cenas são conhecidas, mas a maioria não, estavam perdidas nos escaninhos da burocracia militar britânica.

Atores de outros filmes de Jarman aparecem como soldados simbólicos de uma luta fratricida: Nigel Terry, o rei Arthur do subestimado e brilhante Excalibur de John Boorman, faz Abraham, o “soldado britânico”; Sean Bean é o “soldado alemão” e Owen Teale o “soldado desconhecido”. Mas é a escocesa Tilda Swinton nos primeiros passos na carreira, é ela, que viveu depois sete anos e compartilhou seis filmes com Jarman, que arrebata o filme e nos marca para sempre como a onipresente “Enfermeira”. Graças a ela, quem pensar na guerra como algo do gênero masculino levará um choque em fio desencapado. As mulheres estão lá se despedindo de filhos e maridos, se preparando nos hospitais antes dos primeiros tiros, correndo e se matando de trabalhar para atender a demanda de braços e pernas fraturadas, de órgãos expostos, de mentes destruídas pela dor ou pelo pavor da morte.

Brancos, árabes e asiáticos de todos os matizes, negros, mestiços, latinos, não escapa ninguém na tela, estamos todos bem representados nos campos de batalha, hospitais e cemitérios. Atenção: este não é filme para crianças e adolescentes afeitos aos harrypotters e crepúsculos de plantão. Numa das cenas iniciais, por exemplo, Tilda Swinton grita diante do corpo do “soldado desconhecido” estendido num altar de concreto. O soldado está com sua roupa de combate, as feridas ainda estão expostas, mas ele parece em paz, enquanto ela é a imagem mais-que-perfeita da impotência, do desespero de quem nada pôde fazer para impedir aquela e as outras mortes ao seu redor. Ela não emite som algum nos minutos em que grita o seu silêncio, mas transmite com os olhos, o rosto e as mãos toda a indignação humana contra os que fabricam armas e provocam guerras, contra os políticos e “estadistas” que mandam os jovens para os campos de batalha para matarem ou serem mortos por outros jovens, tudo em escala industrial. Às vezes, para tomarem as terras uns dos outros. Às vezes, apenas porque não falam a mesma língua.

O cineasta Derek Jarman, que trouxe a poesia manchada de sangue de Wilfred Owen no filme War Requiem

Derek Jarman é amado e odiado por legiões, e contabiliza altos e baixos notáveis numa carreira marcada pela polêmica e pela experimentação desde Jubilee (1971), um filme cínico e corrosivo sobre a violência dos punks numa Londres pós-apocalipse nuclear. Seu Caravaggio de 1986 é um exercício de contenção cinematográfica, uma obra-prima singular sobre a genialidade e as desventuras do pintor barroco. Com War Requiem e sua construção sutil e meticulosa, quase matemática, apesar do aparente caos visto na tela, Jarman bem que poderia ter encerrado a carreira mas ainda realizou, entre outros,The Garden (1990), Edward II (1991) e Wittgenstein (1993). Produziu filmes sem parar até morrer no final de 1994, aos 52 anos, de complicações decorrentes da Aids. Um cineasta ímpar que deve ser exibido e debatido, para que não seja esquecido.

Fred Navarro, escritor e jornalista recifense, tem 53 anos e mora em São Paulo desde 1988. É autor do “Dicionário do Nordeste – 5.000 Palavras e Expressões Nordestinas” (Ed.Estação Liberdade, SP)

3 thoughts on “O rufar dos tambores

  1. Um excelente texto, parabéns! Deu vontade de assistir esse filme.

    Gostei sobretudo de sua análise da personagem de Tilda Swinton – a face feminina da guerra. E recordei-me de outro filme, “Libertárias” (1996), do catalão Vicente Aranda, que também trata da participação de mulheres em conflitos bélicos, no caso a Guerra Civil Espanhola.

  2. Belíssimo texto, Fred!
    Não só como comentário, mas também pela qualidade das informações acerca do filme e a trajetória dos atores e diretores.
    Parabéns!

  3. Oi Rodrigo!

    Parabéns pelo texto! Ficou muito bem escrito e aguça a curiosidade em torno dos temas discutidos no filme. Fiquei com vontade de assistir. Desculpe a demora em comentar…hehehe…só agora que tive tempo.

    Abração

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