Pensando a arte contemporânea

Pop arte: um dos movimentos que marcaram o início da arte contemporânea

Bom dia para você que é sol. Boa tarde para você que é horizonte. Boa noite para você que é lua. Este texto pode ser uma tentativa, talvez fracassada, de falar sobre arte contemporânea e, desta feita, caso decida continuar correndo os olhos pelos meus pontos de vista tortos, haja com moderação. Porque falar de “arte” é, antes de tudo, um desafio para um leigo. Quando se trata de arte contemporânea, é como entrar numa via de várias guias, cruzar meandros de caminhos que convergem em lugares comuns, mesmo que sob óticas distintas.

Parece cômico dizer que “arte contemporânea” existe desde o final dos anos 60 e início de 70. Se é contemporânea, como envelhece? Autores relatam seus primórdios ao momento em que tudo que surgia não mais se vinculava a Arte Moderna do início do século XX. Novas ferramentas surgiram, outras se expandiram (como o audiovisual) e a interação ser-objeto sofreu metamorfoses.

Veio a Pop Art, a Op Art, a Conceitual, o Minimalismo, a arte no corpo, o grafite e outras que, no fundo, propõem uma reflexão sobre a própria ou uma crítica a respeito da prática visual. É a fase da experimentação, do sincretismo, da sinestesia. Entram em campo as novas tecnologias, a liberdade artística aliada à técnica e aos suportes tradicionais. Saem de cena a visão pronta do mundo, a interpretação singular de uma obra.

O fato

A verdade é que estive em duas exposições no Museu de Arte Contemporânea no Centro Cultural Dragão do Mar (Fortaleza). A primeira, da goiana Shirley Paes Leme, apresenta as “Heterocopias Cotidianas” da artista. A segunda, o projeto Americanidade, que leva exposições de artistas das Américas Latina e Central para diversos cantos do continente. Por aqui, os trabalhos da panamenha Donna Conlon.

Heteropias Cotidianas

Em sua exposição, Paes Leme põe em debate a idéia de espaço x lugar a partir de obras de arte que retratam, em alguns casos, suas próprias experiências. Neste caso, o “espaço” é pensado como liberdade, algo macro; e o “lugar” visto sob a ótica de se tornar um porto seguro, ou o micro. Para isso, a artista valeu-se de dois teóricos: Milton Santos e Foucault. São sete instalações. A princípio, quem chega ao local olha, admira, às vezes interage, em outras não entende, mas em todas os visitantes acabam criando sua própria reflexão.

Em “Promessas”, lembrei-me das motos Harley Davidson pelo fato de a transformação de velas por meio do fogo resultar em esculturas com formas únicas. Segundo contou a educadora que apresenta a exposição, a experiência surgiu ao acaso quando Shirley precisou fazer uma promessa e percebeu o processo na vela. Detalhe: foram mais de 1.000 velas queimadas para seleção das que foram expostas.

Promessas: esculturas em velas por meio do fogo remetem à religiosidade do povo

Em “1964”, uma vídeo-instalação onde é projetada a imagem de fumaça e fogo, fazendo uma analogia ao período nebuloso que percorreu a década com a ditadura militar. Há também uma instalação com barro, onde o chão da sala foi preenchido com a matéria-prima que, no decorrer dos dias, foi secando e se transformando. A idéia que se tem é de um leito de rio seco, ou a dura vida dos moradores do sertão nordestino.

Na sala “Lume-Vagalume”, o visitante é convidado a entrar numa sala escura e percorrer um pequeno corredor ouvindo o som insistente de aparelhos celulares. Quem entra, vê pontinhos de luz reluzindo e sumindo no desconhecido. Loucura? Devaneio? Não. Afinal, toda expressão artística tem um significado.

Neste caso, Paes Leme remete a um passeio que fez anos atrás pela Europa. Ao ver várias luzes piscando na longitude do horizonte, a artista remeteu-se aos vagalumes. Porém, a realidade era outra. Na época, celular era artigo de luxo e os modelos nem tão evoluídos como atualmente. Para conseguir se comunicar, o usuário devia esperar a luz do aparelho deixar de piscar para funcionar corretamente. Daí, a instalação. O que chama a atenção é a curiosidade das pessoas recheadas de medo e desconfiança de adentrarem no local uma vez que toda sala escura remete a diversas interpretações.

Simples, a instalação com barro remete às secas do Nordeste, aos rios secos, às rachaduras da vida

Americanidade

No projeto Americanidade, a artista e também bióloga Donna Conlon traz instalações onde a videoarte está em foco. As obras foram realizadas a partir de restos de casas demolidas no Panamá para a construção de grandes condomínios. Mas isso, em si, é apenas o alicerce para a criação de seus trabalhos.

Em Refúgio Natural, Conlon mostra a vida que existe debaixo do lixo que é deixado em meio a natureza. A intenção inicial, conforme relata a educadora do Centro aos visitantes, era fotografar um quilômetro de lixo ‘esquecido’ no meio ambiente. Porém, ao fotografá-los, ela acabou descobrindo que mesmo numa situação adversa, os insetos acabam se adaptando e fazendo suas moradas nestes locais que, num primeiro momento, se mostram impróprios para viver (uma boa metáfora para o próprio ser humano, que consegue sobreviver em meio a tanta sujeira que ele mesmo cria).

A artista Donna Conlon convida os visitantes a brincarem com jogos feitos a partir de restos de demolição de casas no Panamá

Na videoinstalação El Basuero, a curiosa vida das formigas cargueiras, que depositam notas de um dólar em sua lixeira como se fossem dejetos normais. Donna Colon reproduziu notas e, nelas, passou uma substância com cheiro semelhante ao lixo que produzimos diariamente. As formigas, com isso, mostram a contradição do que lhes é útil em relação a nós seres humanos.

Há também a exibição de instalações de um novo projeto realizado em colaboração com Jonathan Harker. Em algumas delas os artistas apresentam uma série de jogos inventados, cada um baseado em sua própria lógica. Tabuleiros e fichas constituídas pelos escombros de casas demolidas na cidade do Panamá, que atualmente está sofrendo com uma desenfreada explosão imobiliária.

Conclusões

Em resumo, observamos que arte contemporânea transcende o conceito de algo estático e de fácil degustação, uma vez que as interpretações permitidas são as mais variadas possíveis, indo do estranhamento ao completo encantamento. Se 08 ou 80, o que permanece imutável é a capacidade de um artista levar um ser comum a reflexão. E você, o que pensa sobre a arte contemporânea?

As exposições continuam até a última semana de janeiro. Fica a dica para quem está na cidade.

One thought on “Pensando a arte contemporânea

  1. Rodrigo,

    Muito bom o seu blog.È muito difícil ter textos deste nível
    na impresa formal.

    Neide Pimenta – artista visual

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