Um mundo de fragmentos

Há sons e sons, cores e cores, gestos e sabores, sambas e louvores. Há trechos e textos, há trecos e troços, há fragmentos e há unidade, uni e versos. Assim como em Gregório, o trabalho do paulistano Silvio Alvarez é uma construção da totalidade por meio de trechos, a parte se fazendo todo, o todo se fazendo parte, numa brincadeira que, de tão profunda, se tornou arte.

Para mim, o talento de Sílvio é preenchido não apenas de sentimentos e emoções, mas também da energia que o envolta. Ele reside em Joanópolis e, nessa cidade dois grandes mistérios alimentam a imaginação do povo. Um deles, o gigante da montanha que adormece como quem vigia, em silêncio, terras de outrem. O segundo, a possível existência de lobisomens neste pedaço de Brasil.

O que importa é que, por ali, há uma aura diferente que, neste caso, transforma seres em sobre humanos, talentos despertados, como o caminho que levou Silvio Alvarez ao encontro da colagem. “Em minha infância e também na adolescência, eu jamais demonstrei qualquer inclinação para as artes, nunca consegui desenhar ou pintar e não foi por falta de tentar”.

O todo com a parte, a parte com o todo - Quadro O Sonho de Alice, de Sílvio Alvares

No fim da década de 80, após superar um mar de tormentas, a brincadeira com imagens e folhetos publicitários tornou-se uma criativa válvula de escape. “Mais tarde, compreendi que esta foi a maneira para extravasar minhas emoções, de colocar para fora o que emperrava minha existência”.

Se arte requer tato e sensibilidade, a essência de Sílvio Alvarez se alimenta de beleza, “e a beleza da qual estou falando pode estar em qualquer um e em qualquer lugar”. No final de um trabalho, o que o artista expõe é a sua própria singularidade. “Meus quadros são quase sempre autobiográficos. Através deles dá para saber tudo sobre o que fui, o que sou e o que eu pretendo ser”.

Em seu site pessoal, ele expõe parte de seu acervo que, diga-se de passagem, vale a pena reservar uns minutinhos para conhecer. Por lá, “o artista costuma dizer que a principal matéria-prima de seu trabalho, ainda mais importante do que o papel, é a paciência”. Sílvio recorta as imagens uma a uma para compor a magia de seu universo particular.

"Os quadros são como filhos" - Quadro "Senhor do Lixo"

Para Sílvio, seus quadros são como filhos. – E tem algum que mais admira? – pergunto. “Amamos todos eles sem fazer diferença, mas, lá no fundinho da alma, a gente sempre tem uma quedinha maior por um ou por outro, por várias questões alheias a nossa vontade. Como não tenho filhos e quadros não podem reclamar”…

Dentre os trabalhos preferidos, estão: Arlequim, Senhor do Lixo, O Jovem Arlequim, O Sonho de Alice e, a obra que integra o acervo do Museu Aberto da Sustentabilidade, na Praça Victor Civita, chamada A Árvore – uma colagem em MDF de 250 x 350 cm (foto que abre este post).

Confira mais sobre o artista no pingue-pongue virtual que fizemos. E também a entrevista cedida pelo artista no vídeo. Vale dizer: Sílvio está no Twitter. Sigam-no! @SilvioAlvarez


Você retrata o cotidiano das grandes cidades em suas peças, mas como tem início seu processo criativo?

A idéia básica vem pronta na minha cabeça. Depois eu vou adaptando de acordo com o material selecionado das revistas. Acho que os meus quadros são quase sempre autobiográficos. Através deles dá para saber tudo sobre o que fui, o que sou e o que eu pretendo ser.  Também tratam da vida nas grandes cidades porque sou essencialmente urbano, mesmo que hoje eu resida em Joanópolis, um paraíso com 11 mil habitantes no interior de São Paulo.

Quanto tempo em média leva para fazer um trabalho?

O tempo de produção é muito relativo. Quadros pequenos, de 40 x 25, às vezes, consigo terminar em dois ou três dias. Os grandes, de 100 x 100 cm, por exemplo, podem levar um ano ou mais, entre elaboração, pesquisa, seleção de material, recorte e colagem. É claro que quando começo a perceber que a idéia está tomando forma, dá mais vontade de terminar e isso acaba por acelerar todo o processo.

E o que está produzindo agora?

Estou fazendo uma releitura de O Jardim das Delícias, de Bosch, que vai comemorar seu segundo aniversário agora em janeiro (risos). Costumo dizer que a principal matéria-prima do meu trabalho, mais ainda que o papel, é a paciência.

Garimpar tonalidades para transformá-las em emoções parece ser a chave mestra de seu ofício. Para você, quais as cores lhe transmitem mais poesia?

Eu gosto muito do verde, do marrom e do cinza. Creio que a poesia não está exatamente na cor, mas na densidade das emoções que nos conduz a elas.

Quais artistas você admira na pintura? E na colagem, há algum?

Hieronymus Bosch, Salvador Dali, Giorgio de Chirico, Magritte, Frida Kahlo e Jacek Yerka, entre outros.  Na colagem, tem o mestre brasileiro Tide Hellmeister, que morreu no dia 31 de dezembro de 2008. Tenho também tomado um contato maior com a história da colagem: Hannah Höch, Mimmo Rotella etc.

Você tem a colagem como ofício e acho que também como lazer. Mas existem outras atividades que lhe inspiram e fazem parte do seu cotidiano?

Não me sobra muito tempo além de recortar e colar, porque sou mesmo amarradão no meu trabalho. Mas gosto também de conversar e navegar na internet, de música, de leitura, de cinema, de viajar.

2 thoughts on “Um mundo de fragmentos

  1. Adorei conhecer Silvio Alvarez pelo seu blog! Vc consegue trazer a tona as peculiaridades do artista sem ter que colocá-los numa moldura. Se eu pudesse fazer uma colagem neste comentário seria com um recorte de uma revista bem colorida com a tipografia alegre e a palavra: PARABÉNS!

  2. Silvio Alvarez! Que quadros que transpiram emoção! E sempre bom descobrir as emoções por tras das colagens… Das cores…das imagens! E me identifico completamente com a sua arte, com sua doçura de alma! PARABÉNS! Vc me inspira!

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