Tribunal popular em ação

*Fred Navarro

Crônica de uma morte anunciada (Cronaca di una morte annunciata). Direção: Francesco Rosi. Roteiro: Tonino Guerra. Fotografia: Pasqualino De Santis. Com: Rupert Everett, Ornella Muti, Gian Maria Volontè, Irene Papas, Lucia Bosè, Anthony Delon e Alain Cuny.  França/Itália/Colômbia, 1987. 109 min.

Gabriel García Márquez disse que se baseou em fatos reais ocorridos por volta de 1951, em Sucre, Colômbia, para escrever sua história de vingança. O enredo talvez seja o que menos importa, no livro e no filme, e pode ser resumido em duas linhas: numa aldeia perdida, Santiago é assassinado com uma faca, mas o facto não causa comoção nem surpreende ninguém. Os irmãos Vicario já tinham dito que iam matá-lo de qualquer jeito, por causa da honra perdida da irmã, essas fatalidades de sangue tão comuns nos grotões da loucura humana, sejam colombianos, austríacos ou brasileiros. O que impressiona de verdade na novela é o clima opressor pairando sobre a cidade, a noção de que nada, ninguém, querendo ou não, poderia evitar aquele desfecho trágico, machista e absurdo.

O diretor Francesco Rosi em ação

Afeito às adaptações literárias, o napolitano Francesco Rosi já tinha feito pelo menos três clássicos antes deste filme: “O caso Mattei”, “Mãos sobre a cidade” e “O bandido Giuliano”. E em 1997 realizou outra obra-prima, “A trégua”, com base no romance autobiográfico onde Primo Levi descreve sua devastadora sobrevivência aos horrores de Auschwitz e seu retorno doloroso a uma Turim igualmente destruída.

A política está sempre por trás das interrogações de Rosi. Através de seus filmes ele costuma fazer reflexões argutas e inovadoras sobre as relações do Estado com a violência e com a produção, sem esquecer a relação recorrente da população com a violência. Mas é o roteiro de Tonino Guerra (velho colaborador de Antonioni, Visconti e Fellini) o responsável pela maior proeza do filme: recriar o clima opressivo do texto através da contenção narrativa, uma façanha tentada por muitos e obtida por quase ninguém. A escassez de diálogos ressalta a frieza da fotografia de De Santis e o próprio elenco, em clave brechtiana, às vezes fica “ausente” até demais, no que seria uma das poucas críticas honestas a um filme que é um raro exemplar onde literatura e cinema se mesclam a um ponto de quase perfeição.

Outra virtude do roteiro foi universalizar uma história que se passa em algum lugar perdido na Colômbia. Ao fazer isto, mostra que ali não acontece apenas mais uma história de sangue e vingança. Ali estamos representados todos nós. Rosi acha pouco e ainda presta homenagem a Hitchcock nas entrelinhas e parênteses do filme. Há um crime, vítima e assassinos identificados, um sem-número de testemunhas e pessoas comuns no torvelinho do cotidiano, ao sabor de suas paixões e contradições. Podemos dizer sem erro que a câmera é hitchcockiana: com sutileza, ela persegue os personagens e consegue a proeza de transformar o público em comparsa involuntário do crime que se vê na tela. O velho Hitch aprovaria.

Ornella Muti tem até agora o seu melhor desempenho no cinema, ao lado da prostituta Cass que fez em outra Crônica, a “Crônica de um amor louco” (1981), de Marco Ferreri. A Angela que faz é espantosamente jovem e velha, atrevida e covarde, sincera e mentirosa, tudo isso ao mesmo tempo, sem dar folga para o espectador.  Ela comove com as cartas de amor escritas duas vezes por semana, durante 27 anos, para Bayardo (Rupert Everett), seu antigo amor. Cartas que serão implacavelmente devolvidas sem ao menos terem sido abertas. O tempo, devastador, torna-se então um personagem do filme ao ampliar os ecos da tragédia, ressaltar as diferenças sociais e revelar os limites, previsíveis porque humanos, de sempre.

O galã Anthony Delon vive o papel de Santiago, na trama escrita por Garcia Marquez

Quando Santiago (Anthony Delon) tomba na morte anunciada desde o título, junto com ele caem cinco séculos de atraso, de formação religiosa inútil, de falsos moralismos. E quando a gente pensa que já viu tudo, por exemplo, que fazia tempo que Irene Papas não estava de novo tão à vontade em cena, Guerra & Rosi oferecem no final uma grata surpresa: Gian Maria Volontè impecável no papel de Cristo Bedoya, reconstruindo os acontecimentos de três décadas antes, concluindo sua odisséia e encontrando Angela. A cidade onde o crime ocorreu crescera muito, não era a mesma, não podia ser, e crescera para pior, como quase todas as cidades do mundo. As pessoas envelheceram e foram substituídas por multidões a encher as ruas de sujeira e de barulho. Se o progresso era uma meta, tornou-se um pesadelo, inevitável, mas pesadelo do mesmo jeito.

Este filme é importante, também, por reabrir a discussão sobre o atraso cultural e o baixo nível de civilização que perduram tanto na América Latina quanto em outros lugares. A violência absoluta, o linchamento, o assassinato de encomenda, explodem a partir da desconfiança, já enraizada nas camadas populares e médias, nas instituições que se dizem responsáveis pelo bem-estar coletivo.

Acontece que Rosi, manejando com habilidade os cordões que movem os marionetes em cena, nos diz sutilmente que sente muito, mas a violência não redime os problemas políticos e muito menos os de sangue, os chamados crimes de paixão. Ele não afirma, mas o papel desempenhado no filme pelo “tempo” é a melhor prova disso. No futuro, os personagens, apesar do sangue derramado, ou talvez por causa dele, estarão condenados à mais violenta solidão, à mais absoluta infelicidade.

No final, é com inquietação que reconhecemos: a vida de todos, na cidade, não mudaria em nada, com ou sem a anunciada morte de Santiago. Morte que muitos poderiam ter evitado, mas que tinha sua justificativa na vaga acusação feita por Angela. Aliás, não importa saber se ele era verdadeiramente culpado ou inocente: importante era que a afronta fosse redimida, que alguém pagasse pelo erro. Rosi parece dizer, entre irônico e pessimista, que quando a civilização erra, ou falta, qualquer um pode assumir o papel de juiz. O painel de rostos mostrado em vários momentos do filme trata-se de um tribunal popular, na verdade. Com o veredito tomado por consenso, antes mesmo do início do julgamento. Santiago era culpado, ou melhor, devia ser culpado. Sua morte não passava de consequência inevitável, simples desfecho previsível para mais uma tragédia coletiva.

(Publicado originalmente no jornal comunista “Voz da Unidade”, São Paulo, Nov/1988)

*Fred Navarro, 53 anos, jornalista e escritor pernambucano, mora em São Paulo. Publicou “Assim falava Lampião” (1988) e “Dicionário do Nordeste” (2004) pela ed.Estação Liberdade. É tuiteiro (@frednavarro), não tem medo de cara feia e não acredita em Papai Noel.

2 thoughts on “Tribunal popular em ação

  1. Mto bom o texto. Não sabia que existia o filme. Deve ser mesmo bem hitchcockiano. O livro é tão fantástico que mesmo sabendo que o personagem principal vai morrer (pelo título) não deixamos de devorar cada linha escrita pelo Márquez.

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