S-t-o-p-m-o-t-i-o-n com Fábio Yamaji

Fábio Yamaji durante trabalho para o Banco Itaú - foto: www.skerzocinema.com

Fábio Yamaji durante trabalho para o Banco Itaú - foto: http://www.skerzocinema.com

Engraçado conhecer o trabalho de Fábio Yamaji. Contudo, quando digo “engraçado” não faço alusões a piadinhas para sorrisos de canto de boca ou risadas excomungáveis. Primeiro porque é provável que não só eu, mas você também conheça seus trabalhos, afinal, o cara já fez uma pá de comerciais para a TV. Itaú, Guaraná Antártica, Bubbaloo, Sul América Seguros, Luftal são algumas das marcas que levam a assinatura deste paulistano e palmeirense assumido. Segundo porque eu nunca imaginava ser o trabalho de Fábio algo tão majestoso como o apresentado em palestra do 14º Encontro Sergipano de Comunicação (pasmem: Aracaju).

É um trabalho de cão, de gênio, de monge, de sábio, de louco, de um sonhador que faz do ilimitado o único meio de dar forma à imaginação. Fábio é daqueles que corre por fora e, por ser a animação sua forma de sustento e essa, por tão brilhante que é, acaba ofuscando sua pessoa como aquela idéia em que a cria se sobrepõe ao criador.

Stop motion, para quem não sabe, é a expressão audiovisual feita quadro-a-quadro, uma técnica de filmagem em que você fotografa os modelos (nesse caso, bonecos ou qualquer objeto que possa ser manipulado) frame-by-frame. Para compor um segundo de movimento, são necessários 12 frames. Trabalho que exige uma paciência de Jó – basta ver um pouco dos bastidores da produção. Como o próprio Yamaji disse, “num dia produtivo de trabalho filmando cerca de 10 horas em estúdio dá para se produzir, em média, quatro segundos de animação. Se a cena for muito complexa você produz um segundo. Mas há casos mais simples em que se chega aos 10 segundos”.

A verdade é que Fábio é daqueles que desde pequeno já sabia por quais caminhos queria se enveredar profissionalmente e isso é um grande passo para a realização pessoal. Desde criança gostava de desenhar, ver filmes e, aos 15 anos, já sonhava em ser diretor de cinema. “Em casa, na hora de fazer a faculdade eu era o único que já sabia qual área ia arriscar. Meus irmãos estavam tentando vestibular em Engenharia, Psicologia, Arquitetura. Eu já tinha minha vocação. Quando escolhi essa profissão, o cinema no Brasil estava morto. Tive que ir com cuidado e me formei em Design Gráfico, mas com olhos no Cinema. Acabou que não saí totalmente da área artística, permaneci no audiovisual, mas pude continuar fazendo cinema”, conta.

Yamaji, durante palestra no 14o Ensecom (Aracaju) - Foto: Marcelo Freitas

Yamaji, durante palestra no 14o Ensecom (Aracaju) - Foto: Marcelo Freitas

Para sua tranqüilidade, apesar de o pai ser um engenheiro, Fábio pôde escolher o seu destino, não foi pressionado nem teve de fazer o tipo ‘rebelde sem causa’ para mostrar que era um caminho sem volta o mundo da animação. “Como eu queria ser diretor de cinema, trabalhar com atores, a animação acabou sendo um meio, um atalho para chegar aos longas-metragens. Com o tempo descobri que nela poderia fazer um filme inteiro sem depender de pessoas que atuassem e, sejamos sinceros, é muito mais fácil lidar com bonecos que com humanos. Foi um laboratório que acabou dando certo”, brinca Yamaji.

Segundo ele, podemos chamar muita coisa de animação. “Desde teatro de bonecos, marionete, festas de criança – inclusive já recebi ligações pedindo orçamento para esse tipo de serviço porque assinava como ‘animador’ (e quase peguei, porque estava precisando de grana) -, fantoche, mas o que eu faço exatamente é o ‘cinema de animação’ e sou um diretor de animação”.

Atualmente, existem três grupos de animação: 2D, 3D e stop motion. “A animação 2D é o gênero mais conhecido, mais popular, desenhada à mão, lápis e papel. São os desenhos animados, os cartoons como Pica-pau, Bob Esponja, Pokemon etc. A 3D é feita no suporte digital, no computador. Já o stop motion é aquela feita quadro-a-quadro com qualquer objeto que possa ser manipulado utilizando diversos materiais. Massinha, bonecos de madeira, silicone até materiais como areia, luz, recortes de papel são alguns exemplos usados”, pontua Yamaji.

Apesar de existirem grandes festivais como o Anima Mundi, a imprensa peca na divulgação. “Os jornalistas não devem se concentrar apenas nos festivais, mas também nos trabalhos autorais dos animadores. O Governo tem colaborado financiando projetos e as pessoas precisam tomar conhecimento. É legal participar de eventos como o esse porque acabamos disseminando essa idéia para os futuros profissionais de comunicação”.

Detalhe: Yamaji foi vencedor, recentemente, do Anima Mundi 2009 com o curta: O Divino, de Repente

Pausa para reflexão: Seria Gregório de Matos um possível animador de stop motion?

Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Appareceo

O todo sem a parte não é todo,

A parte sem o todo não é parte,

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga, que é parte, sendo todo.

(…)

Stop motion textual com Yamaji:

Entrar na área:

Nessa área de animação stop motion quanto mais conhecimento você acumular, melhor. Se estiver ocupado de uma função que não exija de você ser um bom ilustrador, até que não precisa tanto esforço assim. Tem animadores que foram assistentes. Acho que a melhor maneira de entrar na área é sendo um assistente de um animador profissional e aos poucos começar a animar também. E daí sem fazer curso algum. A prática é que vai levar a pessoa a aprender a fazer.

Desenho na TV x Animação de Festival:

Perdi um pouco o hábito de ver desenho até pelo volume de trabalho. Antes eu acompanhava tudo, sabia de tudo que passava. Hoje não. Conheço alguns desenhos, acompanho alguns. Desses desenhos que vem de outros países como EUA, Japão, Canadá tem coisa boa e coisa ruim. O problema é que o espectador brasileiro não se vê na tela, muitas vezes não é a realidade dele que está lá. Acho que o problema é esse.

Fábio apresenta o Dr. Alívio, personagem no comercial de Luftal - foto: Amanda Neuman

Fábio e o Dr. Alívio, personagem no comercial de Luftal - foto: Amanda Neuman

O que assiste:

Perdi o hábito de ver TV, mas vejo tudo que aparece no cinema até porque sou crítico de cinema. Animação, documentário, longa-metragem de animação vejo todos. Na parte de seriado é mais difícil porque não consigo acompanhar. Sou free lancer, cada dia trabalhando num horário diferente acabo não tendo uma rotina. Fica mais difícil acompanhar o que está passando.

Referências:

Gosto dos animadores autorais, os curtas-metragistas, como o americano Don Hertzfeldt – ele possui um traço muito simples, mas tem feito filmes bem contundentes.

O Jan Svankmajer: animador tcheco das antigas – desde os anos 60 já faz filmes e me influenciou muito. Ele faz um tipo de animação surrealista.

Também gosto do trabalho do holandês: Michael Dudok de Wit. Ele fez os filmes “O Monge e o Peixe”, “Pai e Filha” – que ganhou Oscar e várias outras premiações. Para mim, “Pai e Filha” é o melhor filme já feito no mundo, independente de ser longa ou curta, documentário ou não, é uma coisa impressionante. Um filme de 10 minutos, mas que você chora toda vez que vê.

Outro é o Hayao Miyazaki, que fez “A Viagem de Chihiro” e o “Castelo Animado”, além de outros filmes. Acompanho sempre. Não tem clássico, traz sempre novidades.

Viagem de Chihiro:

É um filme que tem um lado mais filosófico, mais poético. Mas o mais importante é que não é maniqueísta, o bem contra o mal. Geralmente o que é feio não é mal, você vê muito isso nas animações ocidentais – o vilão é sempre feio, o herói é um mocinho bonitinho. Em Chihiro tem umas figuras muito feias que são do bem. Tira essa visão maniqueísta de rotular pela aparência. Outra coisa é que não é tão didático como seriam filmes da Disney – que são excelentes – mas é tudo muito claro, com uma narrativa muito clássica, mas previsível. Chihiro é uma narrativa que se desdobra e você não sabe para aonde está indo, isso é legal. O filme te interessa a ponto de você confiar naquilo e ir assistindo e no fim você tem uma experiência que não teve antes, ao contrário das animações ocidentais que é meio “você procurar a mesma coisa”.

Animação Brasileira:

Está num momento de crescimento. Estamos no 2º ou 3º ano de um crescimento que não vai parar. Com os incentivos do Governo se solidificando, vemos investimentos em produções em série de animação para estabelecer um mercado de animação brasileira forte. Talentos tem, muita gente boa. A maioria se concentra no eixo Rio-São Paulo, mas há nomes em Porto Alegre, no Centro-Oeste e Nordeste fazendo animação boa e o que falta é só a chance de as pessoas conseguirem fazer seus projetos aparecerem. Tendo quantidade, tendo trabalho em conjunto, começaremos a perceber estilos da animação brasileira – porque ainda não tem. Tem assim coisas muito bem feitas, mas não um estilo definido. Na animação japonesa você já pensa numa coisa, na Tcheca também. Porém estamos num começo promissor.

Construção da realidade:

Na animação tudo é possível. Qualquer loucura que você imaginar você consegue reproduzir nela. Ao contrário de uma coisa com atores e cenários. Fatalmente você vai acabar indo para a animação para buscar um efeito especial. Animação te dá muito mais possibilidades e acho que isso que tem que ser aproveitado. Não tentar fazer uma coisa realista. Modelar um ser humano perfeito no computador, por exemplo. Pra quê? Melhor filmar um ator. Animação é pra você viajar na maionese, criar mundos novos, aí que está a grande vantagem.

Clipe para Adriana Calcanhoto:

Foram dois meses, trabalho em equipe, animei somente. É um trabalho baseado na da animação 3D, no Maya, e nesse programa só sei animar. Mas é um filme todo setorizado, tinha um pessoal que só modelava, outro que só desenhava os elementos, outros que só faziam animação, outros só textura, foi um trabalho em equipe. São produções bacanas até pra dar uma variada nos comerciais – 80% do meu trabalho é comercial, que é muito interessante, mas às vezes é bom você poder quebrar com algo mais artístico, algo que não tenha que vender um produto.

Válvulas de escape:

Animação é meu ganha pão, mas quando tenho tempo faço os meus filmes de animação, meus curtas-metragens como “O Divino, De Repente” – melhor animação brasileira 2009 no Festival Anima Mundi. Também fotografo, mas faço a fotografia analógica com filme. A diferença entre fotografia analogia e digital é muito grande.  Não só no resultado da foto, mas também na postura em relação ao seu objeto, em relação ao seu equipamento. No digital você sai tirando foto até acertar. Quando você está com filme, você toma cuidado com a luz, com o foco, você vai tirar uma foto, você queima um filme e só vê na hora de revelar. Tem uma postura em relação ao objeto diferente. Você já tem que caprichar na primeira. É aquela surpresa de tentar a coisa e depois te impressionar ou não.

Escolas de animação:

Até três anos atrás não tinha cursos nas faculdades. Os profissionais eram formados sendo assistentes de outros profissionais. Hoje diria que estamos num cenário muito mais otimista. Já existem graduações e pós em Animação. E estamos conseguindo formar grandes animadores porque o mercado está abrindo bastante nessa área, após surgimento da ABCA, da qual sou co-fundador.

Yamaji trabalhando em comercial para Luftal - Foto: www.skerzocinema.com

Yamaji trabalhando em comercial para Luftal - Foto: http://www.skerzocinema.com

Nomes brazucas:

Um dos ícones é o Cao Hambuger, que fez o filme “O ano em Que Meus Pais Saíram de Férias”. Ele fez dois cursos de animação pela USP nos anos 70. Fernando Coster: aprendeu com o Cao, fez o curta “Amassa que Elas Gostam”. Trabalhou onde eu já também atuei, na Trattoria di Frame Produções (SP). Teve como assistentes a Malu Dias Marques, Paolo Conti, César Cabral – que são outros três bons animadores também.

Malu é professora na Anhembi Morumbi, o Paolo está dirigindo hoje um longa-metragem – “Minhocas”, sendo rodado neste momento em Santa Catarina. Fui assistente do Paolo e da Malu. Na época que me profissionalizei você contava nos dedos de uma mão do Lula quantos animadores tinham de sto motion no mercado. Essas quatro pessoas acumulavam todo o trabalho que tinha.

Ressalva:

O curriculum de Fábio Yamaji é deveras extenso, apesar da pouca idade que possui. Por isso, fica aqui a indicação: visite o site e conheça o lado autoral e o comercial deste cara porreta.

Ao Fábio, meus agradecimentos pela educação e paciência para a conversa! Foi uma aula de animação e suas ramificações em apenas 30 minutos. (ass: Rodrigo Coimbra)

2 thoughts on “S-t-o-p-m-o-t-i-o-n com Fábio Yamaji

  1. Pingback: Anim8.4Fun » Blog Archive » 3 matérias de viagens recentes

Participe. Deixe seu comentário.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s