Lata de Luxo: o universo paralelo de Bispo do Rosário

Universo paralelo nas peças de Bispo do Rosário

Universo paralelo nas peças de Bispo do Rosário

Ele já foi tema de espetáculos teatrais, livros, exposições, debates e, agora, tem sua história registrada na película cinematográfica de Geraldo Motta – que dirige o filme “O Senhor do Labirinto”, baseado na obra da jornalista e escritora Luciana Hidalgo. Se a breve introdução ainda deixa dúvidas na cabeça, estou falando de Arthur Bispo do Rosário, sergipano natural de Japaratuba, que celebra em 2009 o centenário de sua vida. Mesmo produzindo em ateliês celestiais, este homem multifacetado deixou sua marca no mundo por meio da expressão máxima do ser humano: a arte. Arthurzinho foi homem de boa fé, pouca pecúnia e considerado um dos artistas mais controversos da cultura nacional. Se para alguns Bispo do Rosário foi ‘louco’, para outros diversos foi visto como um ‘gênio’.

 

Sua obra, admirada internacionalmente e exposta em galerias da Holanda, Bélgica, França e, inclusive, na Bienal de Veneza (1995), é também reconhecida por nomes ilustres como o poeta Ferreira Gullar e o crítico de arte Frederico Morais. Mas, nem todo mar é de rosas e o preço que a vida lhe impôs foi alto. Segundo fatos registrados, Arthurzinho confessou ver Deus acompanhado de sete anjos azuis no quintal da casa onde morava – no Rio de Janeiro. Estávamos em 1938 e, com tal visão, ele proclama-se Jesus Cristo. A conseqüência foi sua internação no Manicômio da Praia Vermelha com o diagnóstico de “esquizofrênico-paranóico”. No ano seguinte, é transferido para a Colônia Juliano Moreira, sendo alojado no pavilhão reservado aos internos mais agitados donde começou a criar peças geniais.

 “Sua transferência foi um momento de ruptura, marcado pela transgressão de valores e crença num ideal sobre-humano. A morte do ser humano e o nascimento do gênio que havia dentro dele”, diz Paulo Emílio de Andrade, mestre em Educação e admirador da obra de Bispo do Rosário. Para o mestre, mais que uma vocação para a arte, havia uma relação de amor com o objeto criado. “Recluso, vivendo de forma solitária, Bispo do Rosário chegava a ponto de desfiar seus uniformes com intuito de obter fios que seriam usados em sua cartografia. Não bastasse isso, eternizou objetos do cotidiano em suas obras”, reitera. Frederico Morais, o crítico, escreveu em seu livro ‘A reconstrução do universo segundo Arthur Bispo do Rosário’: “o artista desnuda-se, despoja-se para dar existência à obra, assinalando a transitoriedade do corpo em oposição à permanência do trabalho”.

A marca registrada de sua obra se dá, principalmente, pela utilização dos bordados – ofício comum em sua terra natal. Muitos afirmam que essa foi a motivação original que deu vazão ao processo artístico de Bispo do Rosário durante sua existência. Por meio desse ofício manual e da genialidade do ser, nasceram mantos, fichários, carrossel e peças de vestuário valendo desse recurso. Porém, ele também idealizou esculturas e instalações com objetos simples do cotidiano: garrafas, talheres, copos e canecas, enfim, uma gama de materiais aos quais ele tinha acesso. O lixo do hospital psiquiátrico era o maior fornecedor de matéria-prima, mas Arthurzinho também valia-se da compra e troca de objetos para realizar a feitura de sua arte.

bispo

Bispo do Rosário: trangressão de valores

Nos idos de 1944, Bispo do Rosário deixa a Colônia Juliano Moreira e vira uma espécie de “bola extra Bukowskiniano” – aquele que faz de tudo um pouco, tampouco importa a instituição, passando por vários empregos no Rio de Janeiro. O final da década de 60 marca, contudo, o desenvolvimento de grande parte de sua produção artística, porém, o ele se vê obrigado a voltar para a Colônia em 1969, onde permaneceu até sua morte (1989).

Cinema

Em homenagem ao grande mestre das artes do Estado, Sergipe se tornou palco para as gravações da película “O Senhor do Labirinto”, filme sobre a vida e obra de Arthur Bispo do Rosário, a ser lançado em 2009, e que teve como base o livro homônimo da jornalista e escritora Luciana Hidalgo. A produção do longa-metragem conta com atores locais na equipe, mas o papel principal está a cargo do carioca Flávio Bauraqui. As gravações serão feitas, quase que na totalidade, no próprio Estado e, para financiar o trabalho, o Governo investe R$ 3 milhões – por meio da Secretaria de Comunicação Social e do Banese.

Flávio Bauraqui viverá Bispo do Rosário no cinema. Foto: Portal Infonet

Flávio Bauraqui viverá Bispo do Rosário no cinema. Foto: Portal Infonet

Para o diretor Geraldo Motta, “Arthur Bispo do Rosário é, plagiando o escritor Jorge Luís Borges, ‘um homem que se propôs a tarefa de desenhar o mundo, povoando os espaços com imagens de província, de reinos, de montanhas, de baías, de naus, de ilhas, de peixes, de moradas, de instrumentos, de astros, de cavalos e de pessoas’”, afirma. O jornalista Cláudio Nunes, por sua vez, ratificou de forma magistral ao afirmar que “somente um gênio pode conceber isso tudo, transformando inclusive a sua esquizofrenia numa contraditória lucidez, fazendo tudo se tornar arte, e arte da maior qualidade”, escreveu.

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