Homo homini lupus
17/06/2011 at 1:49 am Publicar um comentário
Não sei por que invoquei Mozart, o compositor, para traçar minhas letras mal rascunhadas. Ouvi apenas uma voz chamando seu nome. Seu meticuloso trabalho, que somou mais de 600 obras ao longo da carreira, deve-se muito à forma rigorosa com que seu pai, o Mozão, atribuiu, no filho, a disciplina. Sempre tive dificuldade em me disciplinar até mesmo para o café da manhã. Certos dias farto; noutros, escasso (apenas o suficiente e necessário, assim como um pão com manteiga).
Mozart, em nada, tem a ver com o assunto, mas conduz-me por meio de suas músicas nesta doce ansiedade de chegar definitivamente ao ponto. Donde partir? Quem é Brecht? Berthold Brecht? Eugen Berthold Friederich Brecht? O gênio Berthold? The rich Fried in these poor hands? Talvez aí um elo forçado de ligação.
Fred Navarro, o jornalista outrora de perfil traçado, assim como pelos textos de próprio punho e vias de fato, trouxe a mim – mesmo que virtualmente – um trabalho inédito e em parceria com o artista, escultor, ilustrador dotado de sensibilidade ímpar Cavani Rosas.
Amigos de infância, época em que o bigodinho ainda traçava pelos finos e contados a dedo, Fred e Cavani mantiveram viva, desde os 15 anos, a amizade. Mesmo trilhando caminhos ora numa única via, ora separados pelos entrocamentos do destino, não permitiram que a memória padecesse.
Décadas depois, os moleques da majestosa Recife – umbigo cultural do Nordeste – começaram a dar forma ao que muitos chamam de lampejo, outros de inspiração, mas que podemos resumir, na verdade, como um encontro feliz, assim como o enlace da unha com a carne, o vinho com a taça, Mozart e eu.
Surgiu daí um novo projeto. A originalidade dos traços de Cavani somada à experiência e sagacidade textual de Navarro apresentam, neste despretensioso blog, quadrinhos da obra “Se os tubarões fossem homens” – do poeta, dramaturgo e encenador alemão Berthold Brecht.
A partir da tradução de Paulo César de Souza (que traduziu, entre outros, obras de Nietzsche, Freud, Lacan e outros), o pequeno conto ganhou corpo no roteiro de Fred Navarro e metamorfoseou-se em história pelas mãos livres de Cavani Rosas.
Para Fred Navarro, trabalhar em parceria com Cavani é fazer um jornalista viver a metáfora do letrista que conhece a fundo aquele que irá compor a melodia. “Cavani põe em seus trabalhos um alto nível de detalhamento e isso é uma de suas molas propulsoras. Admiro suas produções, escrevi o roteiro já sabendo o que Cavani poderia explorar com sua capacidade artística”. Quando levada à mesma questão ao artista pernambucano, as palavras saem como se já preparadas. “Fred é um exemplo a ser seguido, um leitor assíduo, inteligente, conhecedor do que faz e dono de uma cultura inestimável”. Ponto para nós, que temos a oportunidade de ver, conviver e trocar informações em vida com seres de tamanha sabedoria e olhar apurado para o que merece ser preservado.
O conto
Em “Se os tubarões fossem homens”, Brecht apresenta uma de suas variadas interpretações a respeito da sociedade e sua forma hierárquica de ser, tal como dita – com outras palavras – por Thomas Hobbes quando afirmou que, em suma, o homem é lobo do homem.
Peixes pequenos reféns de maiores. Peixes pequenos servos de teorias e ideologias doutrinadas superfície abaixo. Peixes pequenos sendo preparados para, conscientemente, serem devorados pelos donos do pedaço. Os tubarões são retratos do que hoje temos e com tais convivemos desde o momento em que o macaco lançou o osso, o homem descobriu o fogo e criou a pólvora. Alimentou, assim como Narciso, o pensamento de que tudo pode desde que tudo queira. E desafiar o ‘estabilishment’ ensinado num mar de águas calmas é anunciar sua própria sentença de morte.
Peixinhos vão, peixes permanecem, peixões prevalecem. Assim foi, assim é e assim será. Até que um raio caia e, quem sabe, a tábua de esmeralda reescreva com mãos divinas um novo testamento.
Deguste, abaixo, o conto em cinco páginas e ouça (acima), na voz de André Abujamra, a história de Bretch.
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