São Francisco: a poesia de um rio que esvai em silêncio

 

 

Nascente do Rio São Francisco, no interior de MG - Foto: reprodução

Nascente do Rio São Francisco, no interior de MG - Foto: reprodução

Ele nasce quietinho entre duas montanhas num ‘lá’ bem distante nos rincões mineiros – aquele que você fecha os olhos e deixa a brisa soprar em seus ouvidos bem de-va-ga-ri-nho – e, com seu jeito manso de um silêncio profundo, vai se formando gota a gota, até que toma corpo, ganha vida e se enche de arrebatamento. Leva consigo histórias nutridas por suas lendas, seus mitos, suas vozes e ritos. Falar de um rio é falar de mim, de você, de nós todos. É falar daquela essência sui generis que acompanha o embrião da vida e estar um pouco mais próximo de Deus.

Na palestra realizada pela professora Maria Generosa Ferreira Souto durante a 3ª Semana de Extensão da Universidade Tiradentes, a poesia tão grande que é o Rio São Francisco foi trazida à tona em duas faces opostas: a da beleza e a do sofrimento. Doutora pela PUC-SP, ela revelou o grito de quem vive, mas chora em silêncio. “Ele é o fio da memória, a unidade nacional, o fio da beleza, da simplicidade, mas também o da fome, das moléstias, o fio do esgoto e dos problemas. O São Francisco está gritando e, com ele, todos aqueles que vivem à sua margem”, disse.

Estudiosa há mais de dez anos do Rio São Francisco, ela revelou também que ainda há beleza e esperança. “Conheço bem o Alto-médio São Francisco – região que vai do município de Pirapora ao de Januária, em Minas Gerais –, e lá o rio está pedindo socorro. Porém, quero dizer também que ele ainda vive. Em seu percurso existe uma oralidade que o sustenta. Ele carrega consigo uma narrativa, uma identidade das pessoas que o habitam. Ele é o modo de sobrevivência de muitos, interfere no jeito de falar, no de comer, de vestir”, diz Maria Generosa. O tema da noite na apresentação foi justamente a oralidade, o corpo, o mito e o rito das relações entre água e narrativa, em apresentação proferida no Teatro Tiradentes.

Escultura em homenagem ao Caboclo D´água: o mito vivo do São Francisco

Escultura em homenagem ao Caboclo D´água: o mito vivo do São Francisco

“Seus mitos são enormes. O mais famoso deles é o do ‘caboclo d’água’. Esse caboclo que também é conhecido por ‘nêgo d’água’, na Bahia, o ‘caboquin’ – um ser mitológico que reside nas profundezas do rio porque lá há um palácio encantado. É o mito mais difundido em todo o São Francisco”, conta. Os ritos, por sua vez, vêm no sentido da própria narrativa: como é essa narração, o corpo que narra, o corpo enquanto texto e o corpo dos próprios contadores – em que medida há mistura entre natureza e homem por estarem tão mimetizados. “E rito também no sentido das ritualidades festivas uma vez que qualquer ser humano precisa de festas. E ele tem várias ao longo do rio”, completa.

O Rio São Francisco nada mais é que a vida dos barranqueiros que o circundam – “povo feio, mas forte e que o habita”, pontua a professora. E a água do rio está para o homem assim como o coração do homem está para o rio. “Quando a água do São Francisco está muito suja, poluída, as narrativas se esvaem, elas somem, os homens ficam mais tristes, inquietos, porém, introspectivos. Quando as coisas começam a melhorar, o verde ressurge e as chuvas caem do céu levando aquele mar de lamúrias, as narrativas mudam para melhor, ficam mais alegres”, ressalta.

Farol engolido pelo mar na foz do São Francisco

Farol engolido pelo mar na foz do São Francisco

Quem esteve presente no Campus Centro Aracaju e acompanhou a palestra pôde conhecer um pouco mais desse mar de água doce chamado Rio São Francisco. Uma vida que padece em seu leito contínuo em direção ao mar. Barranqueira de coração aberto, a professora Maria Generosa permitiu a todos uma bela viagem em busca de nossos próprios rios, esses que habitam o sangue em nossas veias e nos fazem crer que a vida, por mais turva que esteja, ainda suspira ares possíveis de mudanças. “Os rios não morrem, eles se transformam”, finaliza.

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3 thoughts on “São Francisco: a poesia de um rio que esvai em silêncio

  1. Excelente texto. Principalmente porque traz para o debate o grande rio São Francisco, que deveras chora por causa do bicho homem, que continua lhe matando aos poucos. Parabéns à doutora Generosa Souto, estudiosa das narrativas das águas do velho Chico, que com maestria dialoga poesia de amor e dor pelo grande Opará.

  2. O Velho Chico, agora em dezembro, está “gordo” – como dizem por aqui em Minas Gerais – (cheio). Cheio de águas barrentas, cheias de lixo doméstico, vinhoto, esgoto. Mas o interessante é que quando o rio engorda os causos revivescem. As narrativas (re)surgem trazendo esperança de dias melhores, de áboboras e melancias da vazante. De peixes que podem ser pescados com anzol, para matar a fome dos ribeirinhos. Das frutas que começam a amadurecer ao pé nas barrancas, para dividir com os peixes aquele melado doce e vigoroso. Dos barqueiros e canoeiros que viajam pelo camihop das águas para assistirem às missas nas igrejas dos povoados. Da volta para casa com a fé re-animada e fortalecida, porque a poesia do amor e da dor, ainda, merece continuar sendo tecida. O fio de linha das tarrafas e redes não pode se perder. É ali naquele fio que há a esperança da preservação, da revitalização, da fortaleza das águas, que simbolizam morte, transcendência, mas também vida nova para todos os que banham naquela água, mesmo barrenta e poluída, mas que precisam de nele mergulharem para saírem dele fortalecidos. E assim são os ribeirinhos: choram pelo rio, entram e saem do rio. Vivem do rio. Bebem do rio. Comem do rio. Vivem pelo rio.

    M.G.F.S.(Unimontes-MG).

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